segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Eu estive aqui

Eu estive aqui


Dedicado à Andreia

Como começar esta história? A verdade é que ela estava bem, sentada no quarto, em frente ao seu computador. Trabalhava lentamente ao som da música que tinha a tocar no momento. Ela era uma estudante de apenas 21 ou 22 ou 23 anos… não sei bem. O que interessa é que ela era igual a qualquer outra que tantas vezes vi.
Desta vez o quarto era maior, até tinha luz. A cama, mesmo sendo grande, ocupava apenas o canto do quarto, tinha um roupeiro que ocupava outro canto, esse roupeiro tinha um grande espelho. Ela não olhou para o espelho, tal como as outras também não olharam. Tinha uma secretária com livros, carteira, casaco, um peluche em cima. A mesa do computador era pequena e a cadeira onde estava sentada era velha. Uma estante com livros, alguns antigos, outros novos. Lembro-me que enquanto esperava peguei num dos livros, tinha capas de outros livros, apenas capas. Lembrava-me a minha própria colecção mórbida, apenas imagens e nada mais.
A noite era como sempre fria, chuvosa e ventosa. Não pode acontecer de outra maneira porque tem de se esconder. É entre o medo e o receio que se esconde. Uma noite calma de verão não serve pela simples razão de que motivação é tudo. As noites de verão são mais fáceis e posso descansar, o calor traz sorrisos que ele não aguenta.
Ela olhou calmamente para a janela e depois para o relógio. Perguntava-se se iria sair… mas estava uma tempestade lá fora e isso desencorajou-a. Quase que lhe li os pensamentos…. Hoje não… está a chover… ohh tá demasiado frio… hoje fico por casa… adianto trabalho.
Ele aproveita-se disto, da indefinição da vida de cada uma delas, toma partido de elas não saírem quando devem, quando deviam ter saído. Ele está lá apenas numa noite em todas as suas vidas, e por mais estúpido que possa parecer, ele acerta tantas vezes na noite.
Ela é exactamente como ele gosta. Jovem, cheia de vida e ideias parvas sobre passatempos que os outros acham inúteis. Até este dia não sei o que o motiva, sei apenas que procura aquelas que mais têm a perder. Como se lhe desse gozo retirar ao espaço cósmico o mundo que elas criam. Observo isto há dezenas de anos e, na intermitência da loucura só consigo chegar a uma conclusão. Ele vive de quebrar o equilibro. Observei-o de cada vez que devorou uma energia e começo a poder senti-lo. Quando algo de puramente mau desaparece do mundo ele enfraquece, o equilíbrio enfraquece-o, torna-se faminto e tem de se… alimentar de algo que tenha mais do que simplesmente vida.
Naquela noite fiz o que sempre fiz, a única coisa que posso fazer. Coloquei-me em frente ao espelho durante o tempo todo na esperança de existir. Depois do que me aconteceu só posso existir no reflexo sem nunca poder dizer uma palavra. Fiquei de pé mais de duas horas e ela nunca olhou para o espelho. Nunca olham, como se toda a vontade dele as impedisse de olharem para a única salvação que podem ter.
Ele, tal como eu, já não pode ser visto a não ser no último momento, tal como eu só existo no reflexo do espelho, ele só existe no último inspirar de terror e desespero. É nesse momento que ele se revela, não porque quer, mas sim porque nesse momento, se elas o quisessem poderiam mandá-lo embora. O desespero não é como se pensa, um momento de descontrolo. É o último e derradeiro momento de claridade e calma, alimentado por adrenalina. O problema é que é tão repentino que as pessoas se esquecem de respirar e deixam-no escapar.
Passava da uma quando ele chegou, entrou pela chuva quando ela foi fumar um cigarro. Esperou que ela voltasse para dentro pois o vento tornava-o mais disforme e destruía-lhe os dedos. Nunca fui religioso e ainda não acredito que ele seja um agente divino ou maldito, mas rezei ao que quer que seja que me lembrasse para ela olhar para o espelho. Fechou a janela e voltou, já com a pele fria por causa do ar, tal como ele gosta. Por breves momentos pensei que correria tudo bem, ele caminhava na direcção do espelho… mas o seu telemóvel tocou e ela virou a cabeça. Leu uma mensagem despreocupadamente e pousou-o, sem se virar para o espelho sentou-se de novo na cadeira em frente ao computador.
Ele rastejou até estar nas costas dela, ao nível dos seus pés e eu deixei-me cair de joelhos. Era tarde demais e a sorte que eu procurava não tinha chegado. De repente ele ergueu-se sobre ela, uma nuvem negra que só eu sabia existir naquele momento. O seu pequeno ritual tinha começado e quase nada o podia parar.
Primeiro deu-lhe frio com um pequeno toque da mão esquerda, depois calor com a mão direita. Deu-lhe pequenos toques no ombro e no pescoço, tão imperceptíveis que uma formiga teria feito 10 vezes mais peso… mas foi o suficiente para a desequilibrar.
O desconforto estava assente e a semente também, ela agora sentia-se mal no seu canto seguro e começava a duvidar sobre como se sentia. Ele retirou então a sua mão de dentro das suas vestes podres, uma mão esquelética, cadavérica, com um leve brilho azul que esmorecia perante outras luzes, mas que parecia ser ainda mais forte na escuridão da sua manga. Esticou-a por detrás dela e agarrou-lhe o peito esquerdo, segredou-lhe ao ouvido algo que nunca consegui discernir. O ritual era sempre o mesmo e nunca falhava, ela agora tinha ficado ofegante, o seu coração descontrolado pelo toque gelado, pela energia de ser tocada por algo não existente no seu mundo.
Sentiu o sangue correr cada vez mais depressa, o ar faltou-lhe no peito, o coração parecia explodir. Saltou da cadeira com terror ao sentir-se tocada no peito, ficou em pé alguns segundos a tentar lembrar-se de onde estava, o medo vinha dos seus ombros como uma força que a empurrava para baixo, apertava-lhe o pescoço e esmagava-lhe o peito. Libertou-se dele por momentos e ainda tive esperança… mas ela correu para a janela para apanhar ar. O ar de uma noite chuvosa, fria, de tempestade que ele tanto amava. A chuva caiu-lhe na pele gelando-a, mas ele tocou-lhe de novo com a mão direita na pele e criou mais uma vez aquele desequilibro que lhe permitia alimentar-se.
Voltou para dentro, sentou-se na cama e tentou pensar e acalmar-se. Para ela apenas se tratava de um ataque de pânico, algo temporário que iria passar. O seu corpo tremia incontrolavelmente, suava com frio, não conseguia respirar com o calor que sentia. Fechou os olhos, era esse o momento que ele esperava. Era neste altura que elas pensavam na sua vida, no que poderia levá-las aquele estado. E de olhos fechados ele conseguia ver tudo o que elas pensavam… ou sonhavam.
Ali dentro das suas cabeças ele colocava os seus pensamentos, distorcia os sonhos dela, as suas razões. Por breves segundos mostrou-lhe terror e puro desespero. A imagem era sempre a mesma. Ele escolhia a pessoa mais importante para elas, fosse pai, mãe, irmão, namorado… ele escolhia aquela pessoa por quem ela daria a vida. Durou apenas uns segundos, ele colocou-lhe o pensamento na cabeça. Era sempre igual.
Primeiro colocava essa pessoa importante nos braços dela, encharcada em sangue, deixava-a sentir que essa pessoa morria nos seus braços. De seguida dava-lhe uma hipótese, um poder que lhe permitia salvar essa pessoa. Por muito que eu o odeie admito, ele era um mestre nisto, de seguida incutiu-lhe na sua cabeça esta ideia. Ela tinha o poder de salvar quem amava, mas por um capricho deixava morrer, para de seguida deixa-la aperceber-se do que fez. Era uma ilusão tão real que em segundos o desespero assolava completamente a vitima, e ela não foi diferente. Deixou-se cair de joelhos, fria, molhada, a suar e a tremer, de mãos na cara a chorar por algo que nunca aconteceu.
Foi ai que ele se revelou, no momento de maior desespero e terror. Disse uma palavra que ela pudesse ouvir, o suficiente para ela levantar a cara. Quando levantou os olhos viu apenas uma vestimenta negra, rasgada, podre, de onde saia um bafo quente mas de cheiro fétido. As suas mãos, agora de forma humana, retiraram o capuz que lhe cobria a cara. Não sei de quem era a cara, mas pertencia à pessoa que ela mais amava, a pessoa que ela tinha deixado morrer na ilusão. Mas essa imagem era em meio segundo substituída pela sua verdadeira forma, um cadáver negro, de pele colada aos ossos, de poucos dentes, de nariz partido, cabelo branco a cair e olhos azuis gelados e cheios de medo.
Levantou a mão e colocou-a no peito esquerdo dela que se encontrava paralisada de medo, começou a tentar alimentar-se devagar, como se tivesse medo de a devorar demasiado depressa…
E era aqui que qualquer uma das suas vítimas se poderia salvar, neste preciso momento de puro terror e desespero as suas mentes podiam, ou ficar para sempre quebradas… ou libertarem-se de tudo. Só tinham de se lembrar daquilo que as protegia, um pequeno sitio que fosse puro onde ele não pudesse entrar, um sítio que ele não pudesse sujar com as suas ilusões.
Eu estava de joelhos ao seu lado, a ver tudo a acontecer, sem poder, na minha forma etérea tocar-lhes… mas podia ver tudo. Vi o seu desespero, medo, terror. Vi tudo aquilo que vi centenas de vezes a acontecer desde que acompanho esta criatura. E pela segunda vez na minha vi isto acontecer.
Ela sorriu, no preciso momento em que ele se tentava alimentar da sua peculiar energia, ela sorriu, e ai soube, e vi.
Ela tinha 8 anos, estava num quarto muito pequenino onde todos os móveis eram de madeira muito clara, suave ao toque. Nas paredes, nos móveis, em cima da cama estavam objectos em cor-de-rosa de que ela gostava muito. Na cama um cobertor azul pequeno. No canto… uma pequena secretária onde ela costumava esconder-se. Caminhou para lá, abaixou-se e, de joelhos, rastejou para lá e fechou os olhos. Sorriu e deixou-o ver onde ela estava.
Ele não podia ir lá, ele não lhe podia tocar. Ela estava segura.
Eu levantei-me e sorri… e cheguei mesmo a rir. Passados tantos anos… mais uma que sobrevive. Nessa noite ele dirigiu-se a mim com a sua mais hedionda forma, mas eu já não tinha medo. Vi aquela forma todos os dias da minha vida e só me ri dele. Entre todas, mais uma tinha sobrevivido.
Vi-o tossir e contorcer-se um pouco, tal como naquela noite. Tentou atacar-me, mas por muito que tentasse o meu peso não era aquele. Ele castigou-me, mas não me podia tocar.
Lembrei-me da minha filha, tinha 8 anos quando ele a procurou. Eu ainda não estava com ele. Ela costumava pintar já com 8 anos, fazia costura com a mãe, adorava correr e brincar nas poças de água com um cão branquinho que tínhamos. A sua mãe tinha insistido no nome Maria da Luz. O meu nome é Ville Wirkkala, toda a minha vida tinha sido comandante de um pequeno navio de mercadorias e adorava o mar. Tentei sempre passar esse amor à minha filha.
Na noite em que ele veio eu consegui vê-lo, não sei porque, mas consegui ver a sua imagem, e no meio do terror que ele tentava colocar na minha filha eu pus-me no meio, disse-lhe ao ouvido enquanto a abraçava para fechar os olhos e ir para a praia, colocar os dedos dos pés na areia fria da manha, fechar os olhos, sentir brisa e ouvir o som das ondas, abrir os olhos e observar a imensidão do mar. Ela sorriu e ele não lhe tocou. Quando me virei vi-o a desfigurar-se, como se estivesse a perder algo da sua essência. Ouvi-o a gritar, colocou a mão no meu peito e morri… ou pelo menos o meu corpo. Olhei para mim deitado e vi-o a ele, desfigurado a olhar para mim, um sorriso podre na minha direcção.
Assisti a isto centenas de vezes, e vi os rituais, vi as pequenas falhas… mas só a minha filha tinha sobrevivido e eu paguei o preço. Agora espero sempre num estado de suspensão, apenas a minha imaginação para me suster, os meus pensamentos para tentar perceber o que é que ele é. Tentei matá-lo de todas as maneiras, fisicamente, com a minha vontade, pensamento, rezei a todos os deuses de que tenho memoria. Tenho medo que ele seja imortal, tenho medo que todas as almas que ele consumiu como a mim estejam aqui comigo, que não me consigam ver, que não me oiçam, mas que estejam aqui ao meu lado.
Mas hoje foi diferente, ele perdeu de novo, e ficou de novo mais fraco...
Eu não sei o que fiz para merecer isto, não sei porque é que ele me castigou, se lhe roubei um pedaço da sua vida, mas ele enfraquece, e só gostava de saber quantas mais têm de lhe resistir, quantas mais têm de cair perante ele... até ele morrer.
Escrevi esta história na parede do quarto dela, onde só pode ser vista através do espelho, na esperança de que a próximo esteja ali e leia isto. Sinto-me a ser puxado para o vácuo negro de novo, mas olho para ela, está a dormir, debaixo da secretária, e ele não voltará cá. Não pode, foi derrotado. E por agora sei, nos próximos anos o vácuo será certamente muito mais agradável com o meu riso na minha cabeça.

Carlos Cardoso
16/02/09

5 comentários:

Priston disse...

esta história é com certeza fascinante. Eu também sou escritora, e escrevo coisas que só a mim me passam pela cabeça. Tu tens um dom.

Patrícia disse...

tens que me ajudar nalgumas coisas, porque sou um pouco nova nesta banda dos blogs. podes-me dar o teu e-mail? falamos melhor .ah, eu sou a patrícia. abraços

Liss disse...

Helloo,
Gostei de ler isso, nao entendo tudo porque portugues nao e a minha primeira lingua, mas e bom pra eu praticar a ler!
Tambem gostei do o que voce escreve no seu perfil.. E eu entendi tudo facil haha!
Voce paraece interestante vou entra mais no seu blog!
Liss..

Flávio Neto disse...

O caos está, no espelho, acho que já devias saber disso...
O caos está lá para desiquilibra tudo, mas é um tipo simpático, the life of the party!

Anónimo disse...

Gostei tanto!!!! Já tinha saudades de vir aqui.. Adorei o texto Carlos, a sério.
Posso pedir-te uma coisa? Posso? (Agora é aquela parte em que eu estou a fazer beicinho - que tu dizes já não resultar). Escreve um conto com vampiros pra mim, escreves? :)

Angie