segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Um ultimo segundo a passar demasiado lento...
Este é o simples desvanecer da minha sanidade pelo buraco de algo, alguém.
Este é o simples último minuto na esperança de não enlouquecer.
Sempre basta metade de metade de metade de 1 segundo para acontecer. Senta-te em frente à folha e escreve para acalmar. Não dá. Senta-te em frente à televisão para desligar o cérebro. Não dá.
E o ar continua a faltar…
Senta-te em frente ao computador para jogar, não dá. Continua sentado para ver séries… não dá…
E o enjoo persiste…
Senta-te em frente ao computador… de novo, vê um filme. Não dá, está demasiado calor e o suor escorre.
Sai de casa para respirar.
Mas não quero, não quero sair sozinho.
Eu estou, tu estás sempre bem sozinho… e agora voltaste. Suado, com falta de ar, enjoado, com agorafobia da minha agorafobia da tua agorafobia.
É apenas um segundo, um ultimo segundo, parte de um ultimo minuto, parte de uma ultima hora… parte de uma ultima vida.
Fecha os olhos e aguenta… o pânico não chegará e nem poderás falar em ataque.
Que raio se está a passar… não te via há quase 6 meses, que raio se está a passar…
segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
Até os Vikings ficam doentes...
Cortesia da menina alissolarilole: Queques & Absinto
sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Conto de um teenager atrasado no tempo...
Por isso não percebo lá muito bem o que aconteceu. Tratei bem quem tinha de tratar, dediquei as minhas forças a sonhos que valiam a pena. Deixei os meus braços envolverem o corpo que queria. Lutei por alguma felicidade de quem gosto. Então que raio aconteceu?
Será que estou de novo numa encruzilhada? Será que tenho de fazer mais uma escolha que defina algo? É que ainda agora fiz uma dessas, ainda agora pus as minhas mãos no destino e mandei-lhe quatro chapadas... ainda agora berrei bem baixinho o que queria para mim.
Tem de ser de novo isto tudo? Não posso estar um bocadinho sem escolhas? Não posso sentar-me na cama de outra pessoa e ter alguem a tomar conta de mim?
Ai isto é patético, escrever cenas confessionais de um teenager com 12 anos de atraso ao som de Jeff Buckley e a choraminguice da Hallelujah... vai-me fazer muito bem à minha credibilidade. Se calhar devia mudar para o pai e ouvir a Song to the Siren, se calhar assim faria mais sentido ter quase 30 e andar a choramingar.
A cada seis meses uma escolha... já chega. Quero a vida simples do idiota que se ri e diz apenas: "hey, tudo bem?"
A sério... já chega... na playlist até já tá a passar Radio Macau - Cantigas de amor... não acham que já chega?
Não achas que já chega?
segunda-feira, 8 de Junho de 2009
Tudo o que eu vi...
madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn
looking for an angry fix...
Não... tudo o que vi foi apenas pequenos remoinhos de loucura, arrastando as mentes das pessoas que amo até ao limiar da loucura...
Tudo o que vi foi sermos afectados... por coisas banais... e nunca parar.
sábado, 4 de Abril de 2009
segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009
Eu estive aqui
Como começar esta história? A verdade é que ela estava bem, sentada no quarto, em frente ao seu computador. Trabalhava lentamente ao som da música que tinha a tocar no momento. Ela era uma estudante de apenas 21 ou 22 ou 23 anos… não sei bem. O que interessa é que ela era igual a qualquer outra que tantas vezes vi.
Desta vez o quarto era maior, até tinha luz. A cama, mesmo sendo grande, ocupava apenas o canto do quarto, tinha um roupeiro que ocupava outro canto, esse roupeiro tinha um grande espelho. Ela não olhou para o espelho, tal como as outras também não olharam. Tinha uma secretária com livros, carteira, casaco, um peluche em cima. A mesa do computador era pequena e a cadeira onde estava sentada era velha. Uma estante com livros, alguns antigos, outros novos. Lembro-me que enquanto esperava peguei num dos livros, tinha capas de outros livros, apenas capas. Lembrava-me a minha própria colecção mórbida, apenas imagens e nada mais.
A noite era como sempre fria, chuvosa e ventosa. Não pode acontecer de outra maneira porque tem de se esconder. É entre o medo e o receio que se esconde. Uma noite calma de verão não serve pela simples razão de que motivação é tudo. As noites de verão são mais fáceis e posso descansar, o calor traz sorrisos que ele não aguenta.
Ela olhou calmamente para a janela e depois para o relógio. Perguntava-se se iria sair… mas estava uma tempestade lá fora e isso desencorajou-a. Quase que lhe li os pensamentos…. Hoje não… está a chover… ohh tá demasiado frio… hoje fico por casa… adianto trabalho.
Ele aproveita-se disto, da indefinição da vida de cada uma delas, toma partido de elas não saírem quando devem, quando deviam ter saído. Ele está lá apenas numa noite em todas as suas vidas, e por mais estúpido que possa parecer, ele acerta tantas vezes na noite.
Ela é exactamente como ele gosta. Jovem, cheia de vida e ideias parvas sobre passatempos que os outros acham inúteis. Até este dia não sei o que o motiva, sei apenas que procura aquelas que mais têm a perder. Como se lhe desse gozo retirar ao espaço cósmico o mundo que elas criam. Observo isto há dezenas de anos e, na intermitência da loucura só consigo chegar a uma conclusão. Ele vive de quebrar o equilibro. Observei-o de cada vez que devorou uma energia e começo a poder senti-lo. Quando algo de puramente mau desaparece do mundo ele enfraquece, o equilíbrio enfraquece-o, torna-se faminto e tem de se… alimentar de algo que tenha mais do que simplesmente vida.
Naquela noite fiz o que sempre fiz, a única coisa que posso fazer. Coloquei-me em frente ao espelho durante o tempo todo na esperança de existir. Depois do que me aconteceu só posso existir no reflexo sem nunca poder dizer uma palavra. Fiquei de pé mais de duas horas e ela nunca olhou para o espelho. Nunca olham, como se toda a vontade dele as impedisse de olharem para a única salvação que podem ter.
Ele, tal como eu, já não pode ser visto a não ser no último momento, tal como eu só existo no reflexo do espelho, ele só existe no último inspirar de terror e desespero. É nesse momento que ele se revela, não porque quer, mas sim porque nesse momento, se elas o quisessem poderiam mandá-lo embora. O desespero não é como se pensa, um momento de descontrolo. É o último e derradeiro momento de claridade e calma, alimentado por adrenalina. O problema é que é tão repentino que as pessoas se esquecem de respirar e deixam-no escapar.
Passava da uma quando ele chegou, entrou pela chuva quando ela foi fumar um cigarro. Esperou que ela voltasse para dentro pois o vento tornava-o mais disforme e destruía-lhe os dedos. Nunca fui religioso e ainda não acredito que ele seja um agente divino ou maldito, mas rezei ao que quer que seja que me lembrasse para ela olhar para o espelho. Fechou a janela e voltou, já com a pele fria por causa do ar, tal como ele gosta. Por breves momentos pensei que correria tudo bem, ele caminhava na direcção do espelho… mas o seu telemóvel tocou e ela virou a cabeça. Leu uma mensagem despreocupadamente e pousou-o, sem se virar para o espelho sentou-se de novo na cadeira em frente ao computador.
Ele rastejou até estar nas costas dela, ao nível dos seus pés e eu deixei-me cair de joelhos. Era tarde demais e a sorte que eu procurava não tinha chegado. De repente ele ergueu-se sobre ela, uma nuvem negra que só eu sabia existir naquele momento. O seu pequeno ritual tinha começado e quase nada o podia parar.
Primeiro deu-lhe frio com um pequeno toque da mão esquerda, depois calor com a mão direita. Deu-lhe pequenos toques no ombro e no pescoço, tão imperceptíveis que uma formiga teria feito 10 vezes mais peso… mas foi o suficiente para a desequilibrar.
O desconforto estava assente e a semente também, ela agora sentia-se mal no seu canto seguro e começava a duvidar sobre como se sentia. Ele retirou então a sua mão de dentro das suas vestes podres, uma mão esquelética, cadavérica, com um leve brilho azul que esmorecia perante outras luzes, mas que parecia ser ainda mais forte na escuridão da sua manga. Esticou-a por detrás dela e agarrou-lhe o peito esquerdo, segredou-lhe ao ouvido algo que nunca consegui discernir. O ritual era sempre o mesmo e nunca falhava, ela agora tinha ficado ofegante, o seu coração descontrolado pelo toque gelado, pela energia de ser tocada por algo não existente no seu mundo.
Sentiu o sangue correr cada vez mais depressa, o ar faltou-lhe no peito, o coração parecia explodir. Saltou da cadeira com terror ao sentir-se tocada no peito, ficou em pé alguns segundos a tentar lembrar-se de onde estava, o medo vinha dos seus ombros como uma força que a empurrava para baixo, apertava-lhe o pescoço e esmagava-lhe o peito. Libertou-se dele por momentos e ainda tive esperança… mas ela correu para a janela para apanhar ar. O ar de uma noite chuvosa, fria, de tempestade que ele tanto amava. A chuva caiu-lhe na pele gelando-a, mas ele tocou-lhe de novo com a mão direita na pele e criou mais uma vez aquele desequilibro que lhe permitia alimentar-se.
Voltou para dentro, sentou-se na cama e tentou pensar e acalmar-se. Para ela apenas se tratava de um ataque de pânico, algo temporário que iria passar. O seu corpo tremia incontrolavelmente, suava com frio, não conseguia respirar com o calor que sentia. Fechou os olhos, era esse o momento que ele esperava. Era neste altura que elas pensavam na sua vida, no que poderia levá-las aquele estado. E de olhos fechados ele conseguia ver tudo o que elas pensavam… ou sonhavam.
Ali dentro das suas cabeças ele colocava os seus pensamentos, distorcia os sonhos dela, as suas razões. Por breves segundos mostrou-lhe terror e puro desespero. A imagem era sempre a mesma. Ele escolhia a pessoa mais importante para elas, fosse pai, mãe, irmão, namorado… ele escolhia aquela pessoa por quem ela daria a vida. Durou apenas uns segundos, ele colocou-lhe o pensamento na cabeça. Era sempre igual.
Primeiro colocava essa pessoa importante nos braços dela, encharcada em sangue, deixava-a sentir que essa pessoa morria nos seus braços. De seguida dava-lhe uma hipótese, um poder que lhe permitia salvar essa pessoa. Por muito que eu o odeie admito, ele era um mestre nisto, de seguida incutiu-lhe na sua cabeça esta ideia. Ela tinha o poder de salvar quem amava, mas por um capricho deixava morrer, para de seguida deixa-la aperceber-se do que fez. Era uma ilusão tão real que em segundos o desespero assolava completamente a vitima, e ela não foi diferente. Deixou-se cair de joelhos, fria, molhada, a suar e a tremer, de mãos na cara a chorar por algo que nunca aconteceu.
Foi ai que ele se revelou, no momento de maior desespero e terror. Disse uma palavra que ela pudesse ouvir, o suficiente para ela levantar a cara. Quando levantou os olhos viu apenas uma vestimenta negra, rasgada, podre, de onde saia um bafo quente mas de cheiro fétido. As suas mãos, agora de forma humana, retiraram o capuz que lhe cobria a cara. Não sei de quem era a cara, mas pertencia à pessoa que ela mais amava, a pessoa que ela tinha deixado morrer na ilusão. Mas essa imagem era em meio segundo substituída pela sua verdadeira forma, um cadáver negro, de pele colada aos ossos, de poucos dentes, de nariz partido, cabelo branco a cair e olhos azuis gelados e cheios de medo.
Levantou a mão e colocou-a no peito esquerdo dela que se encontrava paralisada de medo, começou a tentar alimentar-se devagar, como se tivesse medo de a devorar demasiado depressa…
E era aqui que qualquer uma das suas vítimas se poderia salvar, neste preciso momento de puro terror e desespero as suas mentes podiam, ou ficar para sempre quebradas… ou libertarem-se de tudo. Só tinham de se lembrar daquilo que as protegia, um pequeno sitio que fosse puro onde ele não pudesse entrar, um sítio que ele não pudesse sujar com as suas ilusões.
Eu estava de joelhos ao seu lado, a ver tudo a acontecer, sem poder, na minha forma etérea tocar-lhes… mas podia ver tudo. Vi o seu desespero, medo, terror. Vi tudo aquilo que vi centenas de vezes a acontecer desde que acompanho esta criatura. E pela segunda vez na minha vi isto acontecer.
Ela sorriu, no preciso momento em que ele se tentava alimentar da sua peculiar energia, ela sorriu, e ai soube, e vi.
Ela tinha 8 anos, estava num quarto muito pequenino onde todos os móveis eram de madeira muito clara, suave ao toque. Nas paredes, nos móveis, em cima da cama estavam objectos em cor-de-rosa de que ela gostava muito. Na cama um cobertor azul pequeno. No canto… uma pequena secretária onde ela costumava esconder-se. Caminhou para lá, abaixou-se e, de joelhos, rastejou para lá e fechou os olhos. Sorriu e deixou-o ver onde ela estava.
Ele não podia ir lá, ele não lhe podia tocar. Ela estava segura.
Eu levantei-me e sorri… e cheguei mesmo a rir. Passados tantos anos… mais uma que sobrevive. Nessa noite ele dirigiu-se a mim com a sua mais hedionda forma, mas eu já não tinha medo. Vi aquela forma todos os dias da minha vida e só me ri dele. Entre todas, mais uma tinha sobrevivido.
Vi-o tossir e contorcer-se um pouco, tal como naquela noite. Tentou atacar-me, mas por muito que tentasse o meu peso não era aquele. Ele castigou-me, mas não me podia tocar.
Lembrei-me da minha filha, tinha 8 anos quando ele a procurou. Eu ainda não estava com ele. Ela costumava pintar já com 8 anos, fazia costura com a mãe, adorava correr e brincar nas poças de água com um cão branquinho que tínhamos. A sua mãe tinha insistido no nome Maria da Luz. O meu nome é Ville Wirkkala, toda a minha vida tinha sido comandante de um pequeno navio de mercadorias e adorava o mar. Tentei sempre passar esse amor à minha filha.
Na noite em que ele veio eu consegui vê-lo, não sei porque, mas consegui ver a sua imagem, e no meio do terror que ele tentava colocar na minha filha eu pus-me no meio, disse-lhe ao ouvido enquanto a abraçava para fechar os olhos e ir para a praia, colocar os dedos dos pés na areia fria da manha, fechar os olhos, sentir brisa e ouvir o som das ondas, abrir os olhos e observar a imensidão do mar. Ela sorriu e ele não lhe tocou. Quando me virei vi-o a desfigurar-se, como se estivesse a perder algo da sua essência. Ouvi-o a gritar, colocou a mão no meu peito e morri… ou pelo menos o meu corpo. Olhei para mim deitado e vi-o a ele, desfigurado a olhar para mim, um sorriso podre na minha direcção.
Assisti a isto centenas de vezes, e vi os rituais, vi as pequenas falhas… mas só a minha filha tinha sobrevivido e eu paguei o preço. Agora espero sempre num estado de suspensão, apenas a minha imaginação para me suster, os meus pensamentos para tentar perceber o que é que ele é. Tentei matá-lo de todas as maneiras, fisicamente, com a minha vontade, pensamento, rezei a todos os deuses de que tenho memoria. Tenho medo que ele seja imortal, tenho medo que todas as almas que ele consumiu como a mim estejam aqui comigo, que não me consigam ver, que não me oiçam, mas que estejam aqui ao meu lado.
Mas hoje foi diferente, ele perdeu de novo, e ficou de novo mais fraco...
Eu não sei o que fiz para merecer isto, não sei porque é que ele me castigou, se lhe roubei um pedaço da sua vida, mas ele enfraquece, e só gostava de saber quantas mais têm de lhe resistir, quantas mais têm de cair perante ele... até ele morrer.
Escrevi esta história na parede do quarto dela, onde só pode ser vista através do espelho, na esperança de que a próximo esteja ali e leia isto. Sinto-me a ser puxado para o vácuo negro de novo, mas olho para ela, está a dormir, debaixo da secretária, e ele não voltará cá. Não pode, foi derrotado. E por agora sei, nos próximos anos o vácuo será certamente muito mais agradável com o meu riso na minha cabeça.
Carlos Cardoso
16/02/09
sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
Woooo... Wooooo... Caaarrieeeeee!!!!
Deixei-me levar pela possibilidade de ouvir todos os dias um som mágico. Um som que vem dos anos 50... 60... até chegar aos 90 e ser esmagado pela máquina da tecnologia.
Olhei para o capa e pensei... isto vale a pena. Tem a Carrie... isto vai ser tão bom.
Sai da loja com o disco na mão, caminhei pela rua com um artefacto negro que já deveria ter desaparecido muitos anos antes. Quem me perguntava o que era ria-se... isso? Tão gay... porque é que não sacas isso?
Não saco, isto tem de ser mais real. Cheguei a casa, larguei a mala com pins no chão, no canto ao lado do aquecedor, encostada à mesa do computador. Levantei a tampa, carreguei no pequeno botão e liguei, coloquei o disco a rodar... encostei levemente a agulha à superfície preta e deitei-me na cama já depois de tirar o casaco.
Fechei os olhos e ouvi...
Carrie... ohh Carrie...
Sabe tão bem...
terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
Justo
Deixas passar mais uns meses seu inútil de barba esquisita? A culpa é tua e só tua e de novo sabes-lo bem.
1º Julgamento - Culpado de desperdiçar potencial.
2º Julgamento - Culpado de me desperdiçar a vida.
3º Julgamento - Culpado de desperdiçar a sua vida.
4º Julgamento - Culpado de adiar.
5º Julgamento - Culpado de achar que há mais tempo.
6º Julgamento - Culpado de ser burro que nem uma porta.
7º Julgamento - Culpado de não teres amado o que devias ter amado quando devias ter amado o que pensavas que deixavas de ter amado.
Pena - Deixa passar mais um pouco. O tempo vai-se encarregar de te mostrar a pena.
Fica sentado no meio do jardim que julga. Chega o Inverno e queima o frio. Não tens um braço onde te apoiar e cortaste as próprias pernas.
Não podes mais caminhar.
Que posso fazer?
Tenta andar nas tuas mãos... parado vais morrer ao frio.
Ok... é justo.
terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Albert Camus até tem uma certa razão... espero eu.
segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
O acordar
O Acordar
Acordou, e de um momento para o outro sentiu a água quente do chuveiro arrancar-lhe o ultimo vestígio de sono do seu corpo. Acordou sem dificuldades, sentiu o corpo seco debaixo de um roupão confortável. No quarto abriu a janela para um sol resplandecente que não lhe magoou os olhos, o gato não lhe mordia as pernas, mas antes sentava-se ao seu lado ronronando levemente. A roupa e o seu corpo uniram-se. Estava confortável como nunca havia estado. Os livros estavam leves debaixo do seu braço, as palavras neles escritas não faziam sentido mas ele não se importava. O cabelo ao vento não ia parar irritantemente á frente dos olhos, nesse dia permanecia no sítio que lhe era destinado. O café soube-lhe bem, não estava quente, não estava frio. A barriga não o incomodava quando estava sentado no café. O copo de água era fresco e não sabia a nada. O jornal não fazia sentido, mas ele lia-o religiosamente como se fosse algo normal. Não havia barulho no café senão o dos pássaros lá fora, carros passavam na rua mas o barulho não o irritava. Estava em paz. Levantou-se sem dificuldade, o dinheiro apareceu no balcão, disse até logo ao velho e foi-se embora. Os sons soavam-lhe como musica e não como o som irritante e desconcertante que todos os dias lhe moía o cérebro quando saia á rua. Não tinha dores nos pés, não tinha dores nas pernas, não se sentia fatigado, mas sim rejuvenescido, estranhamente não o estranhou. Caminhou solenemente com os olhos colados no sol que não o magoava. O vento não lhe atirava a roupa para trás causando-lhe desconforto. Não estava frio. Deu-lhe uma vontade de correr para uma praia só porque imaginou a frescura de um mergulho no mar. Fechou os olhos e lá estava ele, mergulhado no meio das ondas, o corpo fresco mas sem dor, as ondas eram enormes mas não perigosas sentiu algo nas pernas que não o deixava afundar-se mas não lhe ligou, era algo que o empurrava para cima, mas apenas o suficiente para ficar com a cabeça de fora da agua, ficou lá durante horas e horas, a pele não lhe ficou roxa, o corpo não teve frio, caminhou para fora da agua, abriu os olhos e encontrou-se de novo na rua. Continuou e pôs-se a pensar, enquanto caminhava quase de olhos fechados, que não houve necessidade de apanhar o autocarro nesse dia, nunca mais iria apanhar o autocarro. Isto deu-lhe um sentimento de alegria pois odiava o autocarro fechado onde toda a gente cheirava mal. Era abafado, escuro, poeirento, barulhento e apertado, odiava o autocarro e o seu condutor. Odiava tudo o que lhe tirava o uso ás pernas e lhe cortava a decisão de onde parar e onde andar. Sentiu-se de repente atrasado, cada vez mais atrasado, correu sem parar, correu mais do que todas as outras pessoas que corriam arrastando malas, crianças ao colo que não lhes ligavam nenhuma nem desejavam correr, algumas arrastavam carcaças desfiguradas de cônjuges, namorados ou namoradas enquanto gritavam desalmadamente que tinham de ir mais rápido, muito rápido, tinham de lá chegar mais rápido. Correu mais rápido que eles todos, saltando sem dificuldades sobre bancos e corpos deitados no passeio que não aguentaram a correria e se tornaram vagabundos. Chegou, sentou-se para descansar e em um segundo o seu corpo recuperou, perdeu o suor e o mau cheiro. Olhou para as pessoas que chegavam a correr e a sentarem-se, elas não recuperavam, ficavam molhadas, submersas no seu esforço e suor, correram tanto para apenas chegarem a um sítio que nunca iria a lado nenhum. Perguntaram-lhe aos gritos se ele tinha visto, se tinha lido, se tinha feito, se tinha pensado, berravam-lhe na cara, quase cuspindo enquanto gritavam. Tentaram agarrar-lhe o pescoço para o abanar e o obrigar a responder, mas havia uma barreira invisível que os impedia de lhe tocarem. Calmamente fitou-os, respondeu-lhes que não, que não havia feito nada daquilo que eles queriam, ordenou-lhes que desaparecessem e eles desapareceram. Não se sentiu nunca intimidado com eles naquele dia. Naquele dia ele mandava, tudo lhe saia bem, tudo lhe corria bem. “Um bom dia”, pensou ele levantando-se da cadeira e saindo de novo para encontrar toda a gente parada á espera de uma voz que lhes dissessem para onde ir.
De repente uma voz saiu de uma janela qualquer. Ordenou-lhes que se dirigissem para as aulas. Não sabia se teria sido uma voz tirana ou apenas um sinal sonoro, ou mesmo uma voz imaginária dentro das suas cabeças que lhes dizia as horas correctas para se moverem para os seus lugares. Neste dia a voz não o irritou, pelo contrário a voz confortou-o. Contente por ter ouvido algo que lhe dissesse o que ele queria, dirigiu-se à sala de aula. Estava a sala vazia, entrou, escolheu o lugar ao lado da janela onde uma brisa agradável entrava e o sol lhe batia apenas nas pernas. A brisa nesse dia não lhe cheirava mal, não tinha o cheiro das máquinas que lá fora costumavam trabalhar. O sol não o chateava nem lhe dava calor a mais. Pelo contrário, aquecia-o até ao ponto de ele ficar mole e descontraído.
O professor era o mesmo de sempre, mas tinha perdido o ar malvado, andava descontraído, sorrindo para os alunos que tinham aparecido na sala sem mais nem menos.
Para sua admiração o professor sentou-se na mesa com as pernas cruzadas, falou alegremente aos alunos dizendo que naquele dia iriam descobrir algo que não sabiam.
Iriam pensar por eles próprios disse o professor. Os alunos contorceram-se desconfortavelmente nas suas cadeiras. Pensar por eles próprios, usar pensamentos criativos, que ideia nova era esta que eles não compreendiam? O professor rindo-se das suas figuras como quem ri de um gato que corre atrás de uma mosca acalmou-os.
- Calma gente… é apenas para vocês descobrirem que podem pensar como aqueles que vocês estudam, nunca serão avaliados pelo vosso pensamento, para dizer a verdade, vocês nunca foram em algum momento da vossa vida avaliados pela maneira como pensam.
Imediatamente os alunos calaram-se e ficaram tranquilos á excepção de alguns sussurros de admiração.
Acordado pela brisa agradável da janela, o rapaz alegrou-se, finalmente iria ser senhor dos seus pensamentos, iria poder expor o que achava.
O professor disse que deixaria os alunos escrever sobre o que quisessem, desde que fosse algo relacionado com algo que amassem.
Com isto ainda mais contente o rapaz ficou, escrever algo sobre as coisas que amava não seria difícil para ele. Pôs-se direito na cadeira e pegou na caneta para começar a escrever no papel. Olhou em frente e viu os outros alunos parados, a olhar uns para os outros sem saberem o que fazer. Pensou se eles amariam alguma coisa, pensou se eles estariam dispostos a dizer no papel o que amavam no que amavam.
Quando baixou a cabeça para o papel para começar a escrever sobre o que adorava e achava tão fascinante sobre mergulhos no mar, notou pelo canto do olho numa rapariga que nunca tinha visto. Sentada á janela a apanhar uma leve brisa enquanto o sol lhe aquecia as pernas, ela apoiava o cara na mão enquanto esperava que os outros acabassem de escrever. Ela tinha um molho de páginas escritas em cima da mesa. Ele pensou como é que ela poderia escrever sobre algo que amava tão rapidamente, que será que ela amava tanto ao ponto de poder dizer rapidamente tantas coisas sobre o que quer que amasse!?
Ele olhou para ela demoradamente. Tinha roupas que pareciam uma segunda pele de tão adequadas que eram, uma combinação da cor verde e da cor laranja nas roupas cobria-lhe o corpo. Os olhos verdes e grandes olhavam para a janela em direcção ao mar que se via da janela. O cabelo era ligeiramente encaracolado, ou talvez ondulado pelos ombros. Não parecia um cabelo normal, era vivo, se ela se mexia o cabelo mexia-se com ela, tinha uma cara vulgar mas linda, era uma daquelas caras que adquiria beleza quando fazia uma expressão, se ela sorria ou suspirava, a cara dela mudava e apareciam novos aspectos que não tinham antes aparecido. Era como olhar e estar á espera que aparecessem umas covinhas na cara dela quando sorria e se espreguiçava por estar tão preguiçosa.
O rapaz apaixonou-se logo ali, mas não era amor, era fascinação, paixão. Olhava-a sem conseguir desviar os olhos, ela deixou escapar um sorriso quando viu que ele a olhava.
O rapaz decidiu escrever sobre ela, achou logo ali que se tinha apaixonado e que a amava. Se tinha que escrever sobre algo que amava então porque não escrever sobre ela pensou ele. Concentrou-se e pousou a caneta no papel para começar a escrever. Mas quando ia para começar a escrever lembrou-se de que não sabia nada sobre ela, nem sequer o seu nome. Pensou que mesmo assim poderia escrever algo sobre ela, afinal de contas amava-a. Olhou de novo para ela e ficou de novo calmo e tentou escrever. Lentamente o sol desapareceu da sua janela, a tarde avançava e o sol também. Sem o sol o vento tornou-se frio e ele fechou a janela, minutos passaram e o papel estava em branco. O rapaz sentiu-se a ficar abafado naquele canto, tirou a camisola pois estava cheio de calor, quando a tirou, notou que a T-shirt estava molhada de suor. Sentiu-se desconfortável. O suor incomodava-o, fazia com que se sentisse sujo, inaceitável. Tentou mesmo assim escrever, olhou para a rapariga para se acalmar, mas quando levantou a cabeça ela olhava-o com o olhar triste, o sol também tinha desaparecido da sua janela e o vento tornara-se frio.
O professor entrara na sala com uma cara severa dizendo:
- O sol desapareceu, o vento tornou-se frio, estou chateado, espero que tenham escrito alguma coisa que me agrade.
O rapaz olhou para o seu papel onde inconscientemente escreveu sem parar “ Não conheço o que amo”. Escreveu isto em páginas e paginas e paginas. Entretanto o professor pedia as folhas de volta, todos tinham escrito algo, a rapariga entregou uma folha com uma frase apenas e atirou as outras pela janela.
O professor dirigiu-se a ele com uma cara severa dizendo:
- Isso demora muito ou queres escrever mais uma vez a mesma frase!?
Entregou as folhas e correu lá para fora ouvindo o professor a gritar entre risos sádicos e gozões:
- Para onde corres seu burro!? Até parece que tens algo á tua espera …
Chegando lá fora perguntou aos berros onde estava ela, para que lado tinha ido. Obrigou-os a responder quando os agarrou pelo pescoço. Apontaram-lhe a direcção certa e ele correu, correu ultrapassando todos até que a viu ao longe. Estranhou ter demorado tanto tempo a apanha-la visto que ela caminhava lentamente. Tentou correr mais depressa, queria alcança-la a todo o custo mas quanto mais corria, quanto mais desejava tocar-lhe, mais ela parecia distante. Desesperado tentou puxa-la, estava a centímetros dela mas mesmo assim parecia não conseguir tocar-lhe. Chorando ajoelhou-se e gritou para que ela parasse e o ouvisse.
A rapariga voltou-se para trás e perguntou-lhe porque corria ele quando caminhar na direcção certa bastava. Porque gritava ele quando falar bastava.
O rapaz levantou-se lentamente sem nunca tirar os olhos da cara da rapariga dizendo-lhe que a amava, que a queria conhecer porque a amava, queria saber tudo sobre ela porque a amava.
A rapariga desiludida respondeu com uma pergunta:
- Como podes amar o que não conheces!? Como podes tu querer conhecer algo que dizes amar, quando podes vir a odiar quando passares a conhecer!? Tu não me amas, nem nunca me amarás, poderás vir a odiar-me, mas nunca me amarás porque o que amas não é eu, mas outra pessoa com a minha cara…
O rapaz desiludido mas calmo, perguntou á rapariga o que tinha ela escrito no papel que entregou ao professor. Ela respondeu que tinha escrito que amava quem se dava ao luxo de perder horas e horas a conhecer as coisas antes de as amar.
Fechou os olhos zangado com as suas asneiras, quando os abriu já lá não estava a rapariga, ao longe ela caminhava debaixo do sol com a brisa a parecer que a empurrava para longe dele.
Levantou-se na sombra, uma nuvem teimava em tapar o sol por cima dele tornando o vento frio, vento que passou de uma brisa para um vento tão forte que parecia querer arrancar-lhe tudo o que tinha.
Olhou em volta e viu de novo as pessoas a correr, a arrastarem carcaças, e no meio de uma delas encontrou um homem triste, desesperado arrastando a carcaça desfigurada da sua mulher. Era horrível, ninguém dizia nada, todos passavam a correr pelo pobre homem que carregava a carcaça, deambulando pelo fim de tarde escuro e ventoso, sem rumo o homem chorava.
O rapaz dirigiu-se a ele e perguntou se ele queria ajuda, o homem respondeu:
- Que sabes tu!? Eu não sabia, eu não sabia. Ela morreu e eu não sabia, não sabia nada, como posso lembrar-me dela se não é dela que eu me lembro, se não posso carregar as suas memórias carrego a sua carcaça pois era isso apenas o que eu conhecia…
Voltou a casa e deitou-se, adormeceu.
Acordou, levantou-se e deu um passo, bateu com a perna na cadeira, injuriou tudo e todos, enquanto abria a janela o gato mordia-lhe os pés a dizer que queria brincar. Doíam-lhe os olhos da luz da janela, chovia lá fora. A sua mãe entrou no quarto a berrar com ele para ele se despachar para ir para as aulas. A água quente do chuveiro aleijava-lhe as costas, a roupa estava desconfortável e amarrotada porque não se tinha dado ao trabalho de a dobrar antes de se deitar na noite anterior.
Levou a mão ao bolso onde encontrou a carta da sua agora ex-namorada, leu de relance mais uma vez as primeiras frases:
Não me conheces, nunca me conheceste, nunca me compreendeste. Desculpa acabar contigo, eu amo-te mas tu nunca me amaste, pensaste que eu era outra coisa, outra pessoa…
Foi para a porta de casa e procurou o guarda-chuva, não havia guarda-chuva. Tinha-se esquecido que o tinha perdido. Pensou para com ele:
Devia ter ficado na cama, é mais agradável sair de casa no sonho do que hoje …
Carlos Cardoso
29/04/04
segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
Ali...o tempo todo…
Ao entrar para o corpo não o sentiu, queria uma libertação, simples, eficaz, lenta e definitiva. O pó não lho dava, a única coisa que o pó lhe dava era um nó destruidor no estômago, um arrepio que lhe arrancava a espinha, uma tortura forte, seca e gelada que teimava em não ser suficientemente forte para acabar com tudo.
O Dealer garantiu-lhe, duas doses chegariam para acabar com um cavalo, e ele sentia-se pesado como um. Não aguentava mais o passar do tempo, o fim inevitável dos dias, o começo da dor.
Os gritos de quem o devia apoiar entravam-lhe constantemente pela cabeça, e se apenas entravam à noite, ecoavam pela madrugada e tinham o seu ponto máximo a meio do dia. Mais do que o suor gelado que lhe percorria o peito, eram os gritos que o assaltavam e torturavam, esses frios e agudos gritos que a cada dia estavam mais altos. Não havia escape, não havia maneira nenhuma excepto aquela.
Caminhando pelo vento avassalador e pela chuva que lhe magoava a cara, foi dar ao prédio. Ouvindo os gritos segundo após segundo tentou desesperadamente entrar em casa, mas já o vil remédio lhe entorpecia os dedos. Na ânsia de fugir tomou-o todo mesmo antes de dar três passos para longe do Dealer. Tinha-lhe chamado o “Sabor terreno”, tinha-lhe dito que aquilo, ou o mataria ou salvaria. Não lhe tinha ligado, o próprio Dealer era daqueles burros que tomava os próprios produtos, por isso o que quer que seja que ele dissesse não importava, podia afinal estar ainda mais pedrado do que ele. Queria abrir a porta mas as chaves tornavam-se disformes, moldavam-se de maneira a que os seus dedos não lhes tocassem, a porta tornava-se distante, esticava os braços e batia com a cara na porta, não compreendia esta falta de sensibilidade quanto ás distancias. Mas também não importava, de dentro alguém tinha aberto a porta para sair, soube-o porque deu com o nariz nos sapatos desse indivíduo. Levantando-se desajeitadamente subiu o primeiro lance de escadas em espiral que, de um momento para o outro pareceu-lhe virar primeiro para a esquerda, depois para a direita e depois a direito para cima. Conseguiu subir as escadas por uma simples razão, durante dez segundos uma dor de cabeça atravessou-lhe o cérebro, forte, rápida e aguda acertou-lhe os sentidos momentaneamente.
Entrou na casa que se encontrava vazia, dirigiu-se ao sofá velho e deitou-se, adormeceu, sonhou que estava a voar sobre a sua rua, mas abriu os olhos, caiu em direcção á sua vida anterior, com todas as pessoas a colocarem-se á frente do seu passo, fazendo-o tropeçar.
A porta abriu com um barulho ensurdecedor, ela entrou aos berros, gritando obscenidades para ele, acordou de repente com dores no corpo, o olhar turvo, ele não hesitava em levantar-se, mas o seu corpo sim. Sentiu a mão dela embater-lhe no rosto, viu a sala cair de lado, a parede girou, disforme, sentiu o quarto tremer ao bater com a cabeça no chão, os gritos continuaram, incessantes, ensurdecedores.
No meio de todo aquele caos uma pergunta assaltava-lhe os sentidos, para onde teria ido ela, aquela que lhe chamava a atenção, aquela que, com os seus dezasseis anos e com os seus longos cabelos, o tinha beijado enquanto ele permanecia imóvel com medo de desvanecer a imagem, onde estava ela?
A sua pele não era a mesma, a cara não era a mesma, o corpo não era o mesmo, nada era o mesmo. Ela era uma caveira num corpo escanzelado, irritantemente magra. Os dedos magros e compridos eram dolorosos. Já não tinha dezasseis anos, o cabelo era feio e os beijos eram um pesadelo de sabores guturais, o anjo tinha caído. Na queda tinha perdido tudo, brilho, esperteza, pureza, tinha-se tornado no espelho dele.
Era impossível continuar assim, havia ainda uma réstia de pureza naquele corpo que vociferava ofensas e obscenidades contra si. A questão era onde, onde estava tal pureza. Na superfície não era, não a via, sentia-o apenas quando fodiam. Era dentro dela que estava que estava a pureza. Soube-o, tal como sabia respirar, soube-o apenas, era dentro dela.
Uma dor aguda atravessou-lhe o corpo, explodiu-lhe na cabeça, limpou-lhe os sentidos, desentorpeceu-lhe o corpo, levantou-se, pegou-lhe na cabeça pelos cabelos. Com um simples arremesso arrombou um armário, largou a cabeça da mulher e tirou os cabelos velhos de entre os dedos. Ela estava imóvel, quase inconsciente.
Decidiu que se a pureza estava dentro dela, ele iria descobri-la, pegou num cutelo da cozinha e sentou-se em cima dela. O primeiro golpe atingiu-lhe o peito, mas este golpe era apenas para a fazer acalmar-se, para parar com os gritos na sua cabeça. O segundo era o golpe pretendido, abriu-lhe o estômago, era um golpe suficientemente grande para poder introduzir as mãos lá dentro. Largou o cutelo e procurou dentro do corpo dela a pureza, mas não encontrou. Continuamente tirava órgãos de dentro dela.
O corpo já não respirava. Parou, olhou e gritou em desespero, queria a pureza dela, necessitava da sua pureza. Não a encontrando levantou-se, o sangue caía como chuva do seu colo, a sala estava repleta de órgãos desfeitos e carne disforme e avermelhada. Olhou para ela no chão, deitado de costas o corpo era uma visão de terror, parecia tudo menos humano com aquele buraco dizendo-lhe que não era ali, mas ele sabia que estava dentro dela.
Quando outro raio de dor lhe atravessou o cérebro ele apercebeu-se, era durante o sexo que lhe sentia a pureza, e o corpo dela, com as pernas ligeiramente abertas, deitado no chão, clamava por ele. Com a calma e lucidez de quem sabe exactamente o que quer ele aproximou-se, desapertou as calças, tirou a roupa, levantou-lhe a saia e arrancou-lhe a roupa interior. Entrou nela, sem nunca ter desviado os olhos da sua cara. Entrou sucessivamente no corpo, sentia a pureza dentro dela, sentia-se a apropriar-se dela, sentia-se de novo poderoso.
No entanto algo estava diferente e ele sentiu-o. A pureza dentro dela desaparecia, ele tocava-lhe mas não a agarrava. Não havia reacções, não havia nada, o corpo era imóvel, frio, vermelho, vermelho como tinha sido da primeira vez, só que agora era imóvel e silencioso. Começando a chorar continuou, sem conseguir parar ele continuava a tentar encontrar aquela pureza perdida, tentou desesperadamente até estar quase a tomar o corpo por completo. Quando pensava estar a atingir o fim, uma dor aguda percorreu-lhe não só o cérebro, mas também a espinha. Gritou de dor durante minutos e desmaiou por cima do corpo.
Acordou em cima do sangue, da carne, das entranhas. Não se sentiu puro, não sentiu a pureza, não se sentiu poderoso.
Cheirou a morte, lambeu-a, tentou come-la, a pureza era ela, ali, morta, imóvel. Sentiu-a entre os dentes, sentiu-a desfazer-se na sua garganta… mas mesmo assim era inútil, ele queria a pureza nas mãos, queria senti-la nos dedos, vê-la com os próprios olhos, queria ser o Deus daquela pureza.
Não a viu, não a sentiu, de facto não sentia nada e pôs-se a pensar, se ele tinha consumido a pureza de tantas maneiras, então ela estava dentro dele. Sentiu-se enjoado com a ideia, mas feliz, riu como um louco. Pegou no cutelo e abriu a barriga, cortou-se, viu o sangue cair, meteu a mão por dentro da barriga. Entre gritos de felicidade foi percorrendo o seu próprio corpo… ela haveria de ali estar. Por entre as descobertas do próprio corpo sentiu então o raio final, um relâmpago de dor atravessando-lhe o corpo, modificando-lhe todos os órgãos, destruindo-lhe tudo.
Acordou da droga, da dose, sentiu as dores, sentiu o corpo a ficar gelado, a adormecer, olhou para baixo, viu o seu corpo destruído, olhou para o lado, viu a sua companheira desfeita, de pernas e barriga abertas, no chão, sem se mexer.
Tentou levantar-se para o telefone, mas as pernas pareciam-lhe partidas, olhou a morte nos olhos, viu-a no espelho, a perder sangue e órgãos.
Lembrou-se das palavras do Dealer, “isto ou te liberta ou te mata”, ele não sabia se estava a ser libertado, se tinha libertado alguém…ou se estava a morrer. Arrastou-se para o corpo da sua companheira, abraçou-a, amaldiçoou-a por se ter tornado impura, abriu-lhe os olhos e viu que eram os mesmo de quando ela tinha 16 anos… era ali …a pureza tinha ali estado o tempo todo, quando levantou a mão para lhes tocar o coração parou, o sangue não correu mais, e a sua cabeça caiu-lhe no peito. Libertado ou não ele viu a pureza antes de morrer…
Carlos Cardoso
14/11/04
domingo, 2 de Novembro de 2008
O que é que sou?
Acorda
Acorda desse corpo adormecido, levanta-te e sente o vento frio a entrar pela janela aberta. É quase inverno e o pequeno cobertor e lençol já não te aquecem nas noites.
Aqueceram um dia quando havia um corpo quente a teu lado. Movimenta a tua vida para fora dessa utopia que carregas dentro da tua mente.
Não podes voltar atrás. Carrega a cruz e põe um sorriso. Coloca o sorriso para ti, para mim, para ele, para ela, para eles, para elas, para quem olha, para quem te toca, para quem não te toca, para quem pensa que te toca… para quem não sabe que te toca.
Toca-te, é preciso saberes de que é feita a tua carne. É carne? Tem sangue a passar por ela… é carne e mexe-se…
Salta, é carne, dança, é sangue, fala, é ar que sai de ti, berra… és tu que sai de ti.
Ignora a dor, a carne sofre e a dor física consegue ser muitas vezes mais insuportável que a dor de que todos se queixam.
De que se queixam?
É já meio-dia, que esperas? Um empurrão nunca dado por alguém? Vai e toca na tua pele nas outras pessoas. A tua pele está lá, és tu que eles são… que são eles sem ti? Se tu os trouxeste uns aos outros… que são eles sem ti… que és tu sem eles? Sem os trazeres não serias quem és… és o que os outros são, são o que tu és, o que é que és sem as tuas acções sobre eles… que é que são sem as suas acções sobre mim?
Quem é que sou quando não os tenho… que é que são quando não me têm?
É de noite já, e adormece o corpo com as substancias… faz algo, sé tu próprio… não sejas tu próprio, isso já não dá resultado. O que é que tens de ser para te fazeres notado de novo? O que é que tens de ser? Sé o que já foste para o ser de novo… mas ainda o és… sé mais do que foste… assim notará, notarão… que tens de ser? Que tenho de ser? Que têm eles de ser? Será que ele, ela, eles, elas ainda são o que foram para responder ao que eu já fui? Será que não me respondo ao que quero ser? Que quero ser? Ela, ele, elas, eles já se foram… o que és tu? O que sou eu. De quem é esta mão… esta cara… esta carne?
O que é que tenho de ser para voltar a ser o que era para aqueles que ainda quero que sejam?
O que quero que a minha pele seja?
Fecha a janela e puxa o cobertor… já não tens um corpo quente ao lado.
Diz-me… és um corpo quente? Sou um corpo quente?
02/11/08
domingo, 26 de Outubro de 2008
Eterno
Entra, não tenhas medo, isto é um lugar seguro, amigo de toda a gente. Larga a tua mala num canto escuro qualquer onde demónios não procurem pedaços da tua pele.
Passa a mão pela parede, deixa-a roubar-te um bocado da tua pele. Sabes que esta parede não é normal. Cada vez que lhe tocas ela rouba-te um pouco de ti, perdes uma pequena camada da tua pele, do teu ser… mas não te preocupes, enquanto perdes um bocadinho de ti na parede, ganhas ao mesmo tempo a imortalidade. Modificaste um pouco a realidade, a tua marca na parede. Não é agradável? Acabaste de criar algo sem saberes bem como. O teu ser pertence agora à infinidade. Sabes lá tu com quem te vais cruzar agora.
Já viste? Passado dois minutos uma jovem de cabelos compridos e escuros passa os dedos pelo mesmo sitio que tu. Acabou de se juntar a ti… um pouco dela acaba de se juntar a ti para todo o sempre.
Um amigo teu caminha pela cozinha rústica segurando uma cerveja fresca de baixa qualidade. Respira o mesmo ar que tu, caminha os mesmos passos… pensa os mesmos pensamentos. Pensa? Sente é talvez o melhor termo. Olha para ele, cozinha para uma cambada enorme de amigos. Sem ninguém ver toca em todos os sítios que uma rapariga de cabelo curto e despenteado tocou. Não há ali desespero, ele já se atirou contra a parede em quase desespero. Quando a caos se riu na cara dele não desistiu, pegou na cerveja, alinhou o seu passo e agora deixa-se ir, tocando levemente nos mesmos sítios, levando consigo pequenos toques de eternidade. Já nada faz uma verdadeira diferença.
Para de olhar para lado nenhum, faz-te parecer estranho e nunca quiseste isso. Sé ambíguo e invisível. Não há opinião, toca apenas na parede, junta-te aos outros sem eles o saberem. És eterno, come a refeição cozinhada pelo amigo, bebe a sua cerveja, ouve a sua música. Está na hora de lhe pertenceres a ele e a todos os outros que lá estão. Não olhes para a tua mala, ela tem segredos e os segredos são para estar lá, num canto escuro.
Ri-te, olha para um amigo que bem tenta ter a atenção que tu não queres nunca de modo nenhum. Põe-te no canto, ser visível nunca te fez bem. Toca na parede sem ninguém te ver; agora eles pertencem-te. Fuma se te agrada, bebe mesmo que te faça mal, come mesmo que te engorde, não importa. Toca na parede, só mais uma vez… mas não deixes que te vejam, irás ser eterno e nunca ninguém saberá disso.
domingo, 12 de Outubro de 2008
O teu homem...
A voz falou!
Há um demónio à tua porta, esperando atrás da porta. Está molhado com a chuva de Dezembro, está molhado com ódio…
É um cão a uivar, a raspar as patas imundas na porta, há um demónio à tua porta… É o teu homem, tu própria o admites, conheces o cheiro, conheces o barulho ofegante da respiração; é o teu homem, há um demónio à tua porta.
Não me calo!! Ali está o teu demónio. Tem frio, está molhado, é malvado e quer mais, quer mais… dá-lhe mais, dá-lhe mais… Ouviste o que ele disse? Ele vem a subir até à tua porta. Não o obrigues a uivar, não o obrigues a arranhar a porta, não o obrigues a exigir…
Há um demónio à tua porta… e ele sente, ele cheira, ele raspa os dedos no corrimão da escada…
Ele vem aí! Eu sei!! Ele vem para a tua porta… Tira o vestido, ele vem aí, o demónio, o cão imundo, o teu homem vem para a tua porta, não o sentes?
Para que acendes a luz?! Não há luz, a tempestade destruiu os postes, estão no escuro. Estúpida!! Se a tempestade destruiu os postes de electricidade também não achas que deitou abaixo os telefones?! Pára de evitar o demónio, o cão, o teu homem está à tua porta.
Calma… isso, vês como consegues? É o teu homem, não é nenhum demónio, não é nenhum cão malcheiroso, isso é apenas a tua estúpida imaginação… Ouve-me antes a mim, eu sei, eu sei tudo e sei como te sentes; é o teu homem à tua porta. E cheira a cerveja!!! E então?! É teu homem…
Cala-te! Eu mando!! Eu faço tudo, eu mando em tudo…
Eu sou os teus olhos em todo o lado, tu vês por mim!
Eu sou a tua dor enquanto te penitencias, sou a vergonha quando te arrependes.
Eu sou a tua verdade enquanto mentes sobre essas marcas vergonhosas!
Tu sabes… é triste, mas é verdade… Eu faço as tuas desculpas, eu sou o teu álibi em tudo, eu sou a tua redenção, a tua desculpa perante Deus… Agora pára de ofender o teu homem!!
É demónio? Não é! Ou talvez seja… é grandioso como um, enorme em tamanho, o seu cheiro exala tudo o que é pérfido, o que é prazer culpado… Sim, é demónio nessa perspectiva mas tu sabes que gostas.
Isso, está escuro, pega no castiçal, esse castiçal negro, fino, trabalhado em ferro e cuja extremidade afiada contém uma vela redonda nela espetada. Vês como esse castiçal lhe serve? É belo, é mesmo para ele, para o teu homem, para o teu demónio único.
Abre-lhe a porta.
Olha a tua porta a abrir-se. O demónio entra a arfar, a suar, a expirar, a babar-se. Olha como o amas, como o admiras!
Cala-te! Essa sensação de adrenalina não é mais do que excitação por o veres! Não é medo! Vês como te deitas na cama de pernas abertas?!
Dá-te ao teu homem. Dá-te ou ele chateia-se, não grites, tu mereceste esse soco, lembra-te que ele manda em ti!
Agora sangras, a culpa é tua, bem te avisei… agora deixa-o arrancar a tua roupa. Choras? Porquê?? Aahhh….felicidade! Sente-o a entrar em ti… Vê como gostas…
Serás sempre dele, do teu demónio, nunca lhe escaparás, eu sei… eu sei como sempre irás gostar disto…
O que estás a fazer?! Larga o castiçal! Não vês como ele se sente bem assim?! Porque apagaste a vela? Ele precisa de luz, será que não pensas nele?! Sua puta egoísta!
Porque tiras a vela? Pára! Não lhe faças isso! Ele não merecia esse castiçal espetado no seu peito… tudo o que fez…foi por te amar…
Não me ouves?! Porque não te consigo falar? Pára! Eu amo-te…não me afastes: ouve-me… sempre tomei conta de ti…
A voz calou-se… e o choro ouviu-se, confundido com a chuva na janela…
Carlos Cardoso
06/12/04
terça-feira, 7 de Outubro de 2008
sábado, 4 de Outubro de 2008
Sujeito nº1245 - Primeira Fase.
- Por favor entre, sem medo. Diga-me o que vé.
- Dr. B. Way, parece-me tudo demasiado claro.
- Não tenha medo, vá, abra os olhos, deixe-se habituar luz e, com todo o tempo que quiser, comece a descrever o que o rodeia.
- Está claro, muito claro. Tenho a janela entreaberta mas o sol da manha entra pelo quarto adentro. As cortinas são escuras mas estão nos cantos, não tapam nenhuma luz. Está demasiado claro, sente-se o calor que entra pela janela, deve ser verão… ou então uma primavera muito quente. Tenho a cama por fazer, um lençol apenas e a coberta enrudilhada ao fundo da cama. Uma coberta leve, de linho, é branca e tem um bordado azul, 3 riscas na vertical. Estão 4 posters na parede, bandas de metal, Summoning, Amon Amarth, uma imagem da Angela dos Arch Enemy e Iron Maiden; tenho dois quadros pendurandos na parede. Feitos por amigos que não sabiam o que lhes fazer. Um roupeiro com um misto de roupa desarrumada nas gavetas e, uma perfeita ordenação nas camisas e calças penduras
Tenho a mala no chão, cheia de pins, completamente suja, castanha quando devia ser verde claro.
- Sentes-te atraido por alguma coisa?
- A mala, lembro-me que guardava lá as coisas mais preciosas.
- Pega nela se te apetece.
- Já peguei, tem lá dentro um livro, um caderno de apontamentos, um caderno para as aulas, documentos, leitor de mp3, caneta, lápis… uma pedra e uma bolota.
- Uma pedra e uma bolota porqué?
- Acho que me lembro… a pedra foi quando tive uma discussão com uma namorada antiga, ela ignorou-me enquanto berrei por algo estupido… no fim deu-me uma pedra… porque não havia mais nada a dar.
- E a bolota?
- Já não me lembro… sei que tambem foi ela que ma deu, mas já não me recordo.
- Mais alguma coisa dentro da mala?
- Sim, um papel com notas imprimidas, notas de universidade. Acho que reprovei a tudo, não sei porqué, não me lembro de o ter feito.
- Alguma razão para teres reprovado a tudo?
- Acho que não Dr. B. Way… eu não acho que isto aconteceu mesmo.
- Que é aquilo em cima do teu armário?
- Não sei… parece… um cachimbo, um bong.
- Parece-te ou é?
- É sim, já lhe peguei, e ainda tem lá erva.
- Que queres fazer? Estás no teu quarto, é o teu mundo…
- Vou acendé-lo, não faz assim tão mal, só puxar um bocadinho, o suficiente para relaxar, aquelas notas incomodaram-me.
- Faz o que quiseres, como quiseres, é o teu quarto.
- Que se passsa agora?
- Os meus pais entraram a correr pelo quarto adentro, estão a gritar comigo, viram as minhas notas… estão a dizer que tenho trabalho para fazer e que sou um drogado de merda. A minha mãe dá-me um estalo, bate-me continuamente e pega-me pelos cabelos, esfrega-me a cara num papel que estava na secretária… não quero mais estar aqui.
- Começaste isto, agora acaba. Entraste no quarto, fumaste… agora enfrenta o teu pequeno destino. Mostra-me o que acontece.
- Não quero, ela está a chorar, o meu pai nem fala, dizem que me vão tirar da universidade e que me expulsam de casa… eu não quero mais fazer isto, não quero, não quero, não me obrigue a isto, por favor.
- Onde estás agora?
- Sozinho, sentado no quarto, não há livros nas prateleiras, os cadernos estão arrumados em caixotes debaixo da cama, os posters sairam, os quadros ainda lá estão; a cama tem 3 cobertores, chove lá fora. Está frio, tenho uma camisola de lã vestida. A secretária está arrumada, não está lá nada. A mala desapareceu. Só tenho camisas e calças e casacos no armário. Está tudo demasiado bem arrumado.
- Que queres tu?
- Não quero isto…
- Põe-no a dormir se faz favor.
- Sim Dr. B. Way.
- Quais foram os resultados da 1ª fase?
- Analisando o seu comportamento… culpa, sim, muita culpa.
- Então foi um sucesso, paciente nº 790 com culpa inserida. Passemos à fase seguinte.
quarta-feira, 16 de Julho de 2008
Que se pode fazer?
Haveria um objectivo no meio daquilo tudo? Um sentir que se está preso numa rotina que não nos valoriza. O mundo poderia acabar e dentro do seu quarto nada mudaria, o mesmo ar quente, bafiento que caracteriza, não aquilo que pensa, mas aquilo que vive. É um pobre paralelismo aquele a que se vé associado, dia após dia, noite após noite. – está tudo bem – diz ele, diz para si, só mais uma vez; o mundo não continua e está cada vez mais perto. Uma dicotomia que não separa os seus membros, o instrumento de tortura medieval é uma brincadeira de crianças ao pé disto. Não separa, não arranca membros até lhe ser dada a libertação total. É uma morte lenta que não provoca necrose, não provoca granguena e não ser no espirito. È esmagado por dois mundos diferentes, cada um a querer juntar-se ao outro.
Encontra-se no meio, emparedado por duas superficies que tão bem conhece… os sinais que pode ler na parede, as fotografias emolduradas em encaixes dourados de promessas de vida calma. Molduras negras e podres de devassidão… – é isso que queres? Irás chegar à velhice sozinho, os teus amigos irão desaparecer – é isso que acontece enquanto as paredes se fecham sobre ele?
A primeira noite em que ele se apercebe disso é a mais dificil, fica deitado na cama e de repente o silêncio entra. Um grito ensurdecedor esmaga-lhe a coragem. Ouve choros, um homem gordo e infantil pede que o tirem de lá, as paredes fecham-se sobre ele. Uma voz goza com ele… acabou e começou. É rouca e ele continua deitado. A porta fecha-se, a luz apaga-se… a única claridade presente vem de uma janela onde nem sequer pode por a cabeça. Ele cheira a fragancia de uma noite de verão. A sua mente caminha os seus ultimos passos, ouve os pequenos sons de uma cidade a adormecer e chora. Quando a luz se apaga de vez acabou-se. As paredes fecham-se e esmagam-no entre elas. Ele tenta levantar os braços e logo no primeiro toque da pedra lisa e bege sente… não há força que pare o que está para vir.
Não há prazeres na vida.
Pega no telemovel e procura o nrº, olha alguns segundos para o visor e decide… vai ligar.
– Hey, onde andas? –
– Por ai… –
– Andas meio desaparecida –
– Yeah… –
– Queres fazer algo? –
– Aparece por ai, bebemos um copo –
– Podiamos passar um pouco de tempo juntos… –
– Eu vou andar por ai… –
– Ok, eu depois digo-te algo, xau –
– Até logo –
E de novo o mesmo, o quarto fecha-se com apenas a janela aberta, um leve ar frio que lhe chega à cara. Um mosquito que o chateia por breves momentos é morto com uma pequena palmada.
Deita-se, puxa o lençol e deixa o cobertor no fundo da cama. Amanha é outro dia… sem prazeres. Por momentos as paredes param e ele adormece… o som desaparece por uns segundos, a manha poderá trazer algo de novo pensa ele… mas nunca traz. Sonha em passar-lhe a mão pelo cabelo… só mais uma vez… e essas paredes ficarão quietas.
Carlos Cardoso
16/07/08
segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Descobri...
Caminhei lentamente pela simples razão de que me doia um pé, e enquanto o fazia ia observando como nem me dei conta do tempo a simplesmente passar. Esqueci-me que já não tinha aquela idade... 14, 15, 16 ou 17 anos. Não importa, nem dei conta do tempo a passar, infelizmente esqueci-me que tinha de tratar bem de mim. Agora sou um pouco gorducho, doi-me os pés porque não tratei bem deles e tenho asma, horrível e pesada asma que não me deixa correr nem dois minutos. A mim, que corria duas horas sem problemas. Não fumava nada, acreditava na pureza do corpo, até aos 17 anos não toquei em bebida, assustava-me demasiado pelo que tinha visto, e era tímido, muito tímido, mesmo demasiado.
E foi ali que descobri, passados 10 anos, o que necessitava. Caminhava devagarinho quando a vi, doce, ágil, pequenina, mas sempre carinhosa. Abraçada a um namorado com cara de quem estava envergonhado. Não conseguia ver qual deles é que era mais magro, mais pequeno, se ele se ela, mas também não importava. Ela deixava-se ser ligeiramente mais pequena que ele, sem ele o notar ela dava-lhe a primazia física que tão bem faz ao ego masculino, mesmo quando é ainda um ego de miúdo.
Mas ainda não era isto que eu notava mais. Notei na sua atitude inocente, a maneira como ela o abraçava, ligeiramente mais baixa colocava os seus braços à volta do seu pescoço e, dessa maneira, permitia que ele a segurasse pela cintura. Ela punha-se em bicos de pés, esticava-se tão sensualmente como é permitido a uma miúda daquela idade e tentava beijá-lo. E notei no que precisava, alguém que se pusesse em bicos de pés e tentasse beijar-me por entre sorrisos e pequenos risos. Não havia ali um beijo, havia a tentativa de um beijo pois ela estava tão feliz que o seu sorriso não lhe permitia juntar os lábios para um simples beijo. O sorriso da sua felicidade era mais forte que o desejo de beijar. É isso que quero, o sorriso da felicidade...
terça-feira, 27 de Maio de 2008
Sonho... sonhei!!!
Deixei-a passar, a ela e ao seu sorriso calmo e aberto, ao seu torcer de nariz cada vez que eu dizia algo estupido, ao seu cabelo selvagem que não era selvagem a não ser porque eu o queria. Porque deixei eu passar tanto tempo? É apenas esta pergunta que fiz a mim proprio enquanto adormecia e, confesso sem medo... pensei em ter sexo com ela. Não o evito, lembro-me bem dela, dos seus movimentos suaves enquanto me abraçava docemente e adormecia nos meus braços. Suspirava por beijos enquanto ela adormecia nas tardes desperdiçadas. Nunca a beijei... porque raio nunca tentei? É a pergunta que faço ao lembrar-me da sua foto em bikini... sim, confesso... sou um pouco depravado e olhei para os seus seios, para a leve curva de perfil, sim, confesso, imaginei segurar-lhe na cintura e puxa-la para mim. Sim, confesso, imaginei-a sem vergonha, a mesma vergonha que tinha quando lhe dizia que estava linda. A mesma vergonha que ela exibia quando instintivamente me escondia as suas curvas quando me aparecia com menos roupa à frente.
Tenho saudades dos abraços que ela me dava com força, que me esmagavam o pescoço. Confessou-me uma vez que gostava de morder os lábios enquanto beijava, desde essa altura que mordo todos os lábios que encontro pela frente.
Tenho saudades dos meus 16 anos... tenho saudades dos seus 15 anos... e ja vou com quase 30.
Não sonhei nada, nem sequer dormi, mas sonhei.
segunda-feira, 19 de Maio de 2008
Bom dia, bom dia!!!
Estás contente porquê? Perguntam-me sempre porquê...
Não importa, sai da universidade e caminhei ao som de musica parva, Belinda Carlisle acompanha-me... uhhh baby do you know what love's worth.... ou qualquer coisa assim. O sol magoa alegremente. Alegremente? Mas que parvoíce, e sim, é alegremente. Alegremente que as pessoas correm, correm ao trabalho, ao lazer, ao sexo... querem todos sexo, sexo por dinheiro, poder, sexo através de aprisionamento por matrimonio, sexo por favor, fiz-te um favor... poooor favoooooor!!!!!!
Ohh patetice... eu faria sexo por um niquel... nenhum niquel. Faria sexo por um sonho, um pequenino sonho, faria amor... aiii amor, lindo amor. Tropecei, foda-se.... caralho...merda ia caindo... fiz figur.... ganda par.... bonita tambem... que mundo este... primavera e as meninas usam boobie-shirts... elas querem que eu olhe... eu ou mais alguem... não importa, não as vou censurar, se eu tivesse mamas assim tambem queria que olhassem... sao boni.... porra, mais uma bonita... são sempre tão lindas, tão lindas... se elas soubessem o carinho que tenho por aqueles sorrisos, bochechas... aquelas covinhas... porra apetece-me mesmo abraça-las... aiii se elas imaginassem as coisas que faria com elas, elas gostariam de mim. E não, não falo de apenas sexo... elas são bonitas... e queria dar-lhes carinho....
Pera... cheguei... porra tou feliz.
Hey.
domingo, 11 de Maio de 2008
Pequeno pedaço de desespero...
Desespero…
Lembro-me perfeitamente. Era um sábado à noite, mais ou menos por volta das 22 horas. Estava um tempo chuvoso, típico da altura. Estávamos em Fevereiro e aproximava-se aquele dia cómico, o dia 14. Algo que sempre achei muito divertido era o facto de, assim que acabava a época melosa dos namoradinhos, instalava-se o Carnaval. Costumava dizer às minhas antigas namoradas e paixões que – Acabava uma palhaçada e começava outra, de qualquer maneira as pessoas ficam acéfalas nestas alturas. – Confesso que elas nunca achavam muita piada. Também é verdade que tive sempre o condão de escolher raparigas muito românticas que, de uma maneira ou de outra, queriam sempre passar esses dias de amor eterno comigo. Queriam passa-lo abraçadas, aos beijos, a segredar segredos que não interessavam a ninguém. Estas relações nunca duravam muito. Uns meses no máximo, nunca mais de seis.
Por volta das 22:15 fiquei aborrecido de estar
Sai do meu apartamento. Um apartamento que tinha um cheiro a beatas, a botas velhas e a odores nefastos. Não, eu não tinha janelas. Quer dizer, tinha mas nunca as abria. O fumo tabagista era-me mais agradável à minha aura de solitário que o ar puro. Esforcei-me por andar direito sem tropeçar nas minhas próprias pernas. Tive preguiça de apertar as botas e os fios dançavam pelo chão. Sentia os pés a vaguearem, e o húmido das pedras da calçada, não ajudava nada à festa. Recomeçava a chuva. Uma chuva miudinha que não chateia ninguém mas, que encharca lentamente os cabelos e provoca constipações. Queria ter trazido um guarda-chuva comigo mas, pela centésima vez, perdi-o numa pastelaria qualquer durante o dia. Era comum, entrava, deixava o guarda-chuva à entrada e, aquando da saída, já não o encontrava. O que vale é que, os guarda-chuvas, começavam agora a ser vendidos nos chineses a preço de banana. No dia seguinte teria comprado um.
domingo, 4 de Maio de 2008
Olha a menina a dançar…
Olha a menina a dançar…
Nas ruas saltitava, dançando, cantando, correndo, dançando.
- Quem era!? – Perguntou o duende da esquina á fada do candeeiro!?
- Lá sei!!!! Uma tola, olha para ela a correr – Responde com uma voz sorridente a fada.
- Olha, eu gosto dela, saltita como um miúdo a fugir da brincadeira de um cão. – Intromete-se o gnomo do pavimento. – Sinto-me bem com ela a pisar-me, vivo para isto. Aiiii se todas as meninas saltassem como esta, já ninguém salta assim – Reclamou o gnomo.
O gnomo eventualmente tinha razão sabem? Já ninguém procura nada hoje
Mas aquela menina de cabelo vermelho como o fogo sabia o que perdera.
Não me perguntem a mim, eu também não sei. Nem o Gnomo sabe. Mas que é bom ver finalmente alguém a procurar estas coisas é.
- Oooooooooooolha a menina a dançar… tão bela, no seu saltitar, quem vai com ela dançar!??!? – Cantarolou o mocho da esquina da varanda.
- Deixa de ser parvo, não vês que ela não procura isso!!!! Isso já ela tem, cheira-me que procura saltar apenas … - rosnou o Trool da sarjeta.
Saltitava, saltitava a menina de cabelo vermelho. Por entre ruelas antigas, místicas, maravilhosas dançava. As pessoas não notam, estão estúpidas. Para as outras pessoas a menina só caminhava. Mas para os gnomos, fadas, duendes, trools, mochos e muitos outros bichos, a menina saltava e dançava e procurava, sempre procurava.
- Que raio quer esta?!?!?!!? Tá a andar daqui pa fora – berrou a bruxa da entrada do bar.
- Cala-te estúpida, olha lá bem!!! Tá a dançar, deixa-a tár, tá á procura de algo, olha como fica feliz com cada passo dado nestas minhas ruelas – Gritou o Anão dos passeios.
- Ai agora são tuas!? É minha besta!? São tuas!? Vou ai arranco-te essa barba á dentada!!!!! Os passeios são teus burro, as ruelas são minhas, e ela em ti não toca que tem nojo dos teus dentes amarelos e nariz com ranho a pingar!!!
- Tão giro… depois são os trools que berram e fazem merda. Calem-se lá vocês os dois, tão-me a dar dor de cabeça. – Resmungou o estranhamente limpo trool da sarjeta.
- Óóóóóóóó fada!!!! Vai atrás dela, dá-lhe lá luz com o candeeiro para ela ver o que está á procura!!!! – Pediu o mocho da esquina da varanda.
- Tá bem, tá bem, eu vou… ela até tem piada a saltar, cantarolar, a saltitar e a dançar… gosto da cara dela, é bonita.
- Será que ela é infeliz quando vai para casa!? Eu gostava que ela fosse infeliz. – Disse baixinho o Demónio do caixote do lixo.
Sabem o que se passou!? Não sabem!?!? Eu digo, eu digo…
Todas as criaturas se juntaram, mandaram uma coça no demónio do caixote do lixo. Deixaram lá tudo o que de porco tinham para o demónio cheirar mal e a menina não se aproximar dele.
E assim correu a menina do cabelo vermelho, saltitou, cantou, dançou e correu. Se achou o que procurava, eu não sei, nem ninguém sabe. Nem mesmo as criaturas. Mas elas juraram, sempre que a menina fosse á cidade de Coimbra, caminhar pelas ruelas, protege-la, até ela achar o que procurava.
Carlos Cardoso
22/02/05
segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Temos quase tudo...
Ainda aqui! Não fazemos nada senão ouvir musica, escrever, falar, falar… “vamos despir-nos todos”. Mais uma frase desconexa passada entre nós. As ideias do louco serão mais tarde recordadas através de fotos arrancadas por judeus falsos. O som de Apoptygma entrará na minha mente como uma recordação quente daqui a uns anos. Mas por agora estamos aqui, sobre uma pele de leopardo, t-shirts de Maiden, The Clowns made me do it, Che Guevara a vermelho e uma camisa que parece papel de parede dos anos 80.
É assim a realidade… a voz do crítico literário soa na minha cabeça, demasiado deformada de tanta critica online. Pseudo-beatnik ao beat de Joy Division.
Nada mau este pedaço de papel, estou orgulhoso e o silêncio reina por entre a música.
Dois velhos a falarem? A ideia parece-me a mesma. Temos quase tudo, até uma arte efémera capturada em fotografia temos… foi esmagada pelo movimento clássico dos clássicos.
Temos quase tudo.
Carlos Cardoso
13/03/08
domingo, 13 de Abril de 2008
Pequenos mutantes verdes
Procuramos perguntas, sim perguntas. Não há uma resposta errada, não existe um sim e um não. O louco compra um caderno e de novo prepara-se para invadir as nossas mentes. Nesta tarde, que já não existia aqui há meses nos sentamos e sentimos
Preparamo-nos para o que se avizinha e as perguntas que o louco nos quer arrancar, começam a esconder-se nas nossas mentes.
Como nos sentamos, lentamente deixamos as perguntas assentarem-se. Deixo a pequena vergonha para trás e uso um cliché e uma bonita. Porque não a Forgotten Sons e sim a Kayleigh? Porque não ouvir em vez de cantar, sim porque a Kayleigh canta-se tão bem e tão despreocupadamente.
Alguns de nós não compreendem que não são apenas emaranhados de palavras, são pequenas e estúpidas ligações que nos fazem saltar, ler ou quase falar. Quantos de nós fazem e não desfazem na tentativa de esconderem-se atrás do sol. Só um, um que não pertence verdadeiramente naquele canto, naquela sombra.
Por momentos ouço um pequeno som, salta de uma guitarra, tocada por um isqueiro numa posição mal formada, criticada pelos conservatórios. Bom som, celeste e buda. Há quem lhe ache piada… eu acho piada, o louco deve achar piada mas está tão perdido a reclamar e declamar que nem se dá conta. Analista analisa, calmamente olha a relva, depois o caderno. Deixa a sua pergunta normal, já não me lembro, tem algum significado, tem sempre.
Não há nada de mal em ser-se arbitrário, somos pequenos mutantes da relva verde… assim não há vergonha, assim há algo.
Tá grande bafo… é isso que retiramos desta tarde e o louco controla as respostas, ele decide quando, como, quem responde… deixa estar, esse louco ávido de controlo. O analista que demorou 10 minutos a fazer 2 perguntas demora 1 segundo a querer responder.
segunda-feira, 7 de Abril de 2008
A day... in the sun i say!!!!
LOVE LIKE SEMTEX… OOHHH YHEAAA!!
Nada como um grito interno ao sol, não é altura de gritos para o mundo, o mundo não quer.
Começa o dia com sol, café e noticias inúteis que me despertam o cérebro. Bem, não é bem café, é sim um sumo e um bolo de arroz. A empregada da pastelaria traz-me o que quero enquanto esvoaça como uma mosca morta pelo estabelecimento: lenta, lentamente se apercebe do que quero, lentamente me traz o que quero, tudo lentamente, acorda.
Estão sempre as mesmas pessoas na paragem de autocarro. Tenho vontade de lhes dizer que não têm de me seguir. Principalmente a miúda de cabelo espalmado por gel ou espuma ou outra coisa qualquer. Para de olhar para mim, não tens de me esfregar o teu olhar na cara. De todas as pessoas que lá param só me interesso por mim, e mais não me interessa, talvez daqui a 10 anos a miúda de cabelo espalmado se deixe de merdas e rebole para o meu colo.
Steady as she goes…
Bom dia, come-se lombo com saladinha seca e ninguém me salta para o colo a ronronar. Smoke a joint in the grass… e a escrita tem que sair, vai sair eventualmente, nem que seja por eu ser um pseudo-pseudo-intelectual-jack-jean.
Smoke, smoke, weee
Estou em 1950 ou 40, sei lá. Um bocadinho exagerado… mas gosto.
E agora fala-se de novo nos nossos projectos sonhadores de literatura.
Estou de volta aos sonhos.
13/03/08
segunda-feira, 31 de Março de 2008
Tempo
Tempo
Tempo de escrever algo. Comprei este bloco, não porque tenho de escrever, comprei-o porque está na hora de começar
Caminho à chuva com um vento enorme e oiço Jack… Jean… qualquer nome serve. Aulas aborrecidas, a poesia espanhola é interessante mas não hoje, não hoje que tomei um comprimido para alergias… e dá-me sono.
Abre os olhos e segura a cabeça, isso. Encontrei o David, dá-me a mesma conversa amigável de sempre: “ bora beber um copo um dia destes, pelos velhos tempos, um sixpack nos bombeiros.” Quais velhos tempos, foi apenas o ano passado, não são tão velhos assim Jack ou Jean fala de S. Francisco. Mágico e estou obcecado. Tenho de comprar um caderno e o piano toca nos meus ouvidos. Lá está, ele, o louco, havia de gostar de falar com este saxofone. “the tree looks like a dog, barking at the heavens”. O louco compreenderia, o analista apreciaria, sim ele, o analista.
Compro o caderno, mas antes vejo um dos amores. Cabelo para trás pelo vento, olá e adeus. Não é sempre assim? Comprei o caderno, primeiro passo dado.
Carlos
10/03/08
segunda-feira, 17 de Março de 2008
Pequenos pedaços de pedaços...
Agora observo eu, um gabarola gordo, de barba imperfeita e dentes tortos, voz de grunhidos e burro que nem uma porta. Mas ele estava confiante, seguro que nada lhe aconteceria. Provavelmente estaria muito mais seguro que eu, mais preparado. Ele teria assimilado todos os ensinamentos, todos os códigos, todas as directrizes que lhe foram alimentadas. Mesmo assim ele falharia, era simples, confiança a mais mata, eu sei-o. Quando era mais jovem era confiante, praticamente arrogante. Deixei de o ser quando cai, a confiança não leva a lado nenhum, apenas engana. Este sistema quer-nos assustados, quer que deliremos com tudo o que dizem mas, não quer que o questionemos.
Do outro lado da sala estava uma rapariga ruiva de cabelo curtinho que parecia mal cortado, trazia um gorro que lhe deixava cair a franja e bocados de cabelo para fora. Estava sentada a olhar para a mesa em sua frente. Observei-a durante uns minutos, ela parecia calma, serena, talvez conformada com o que se iria seguir. Talvez estivesse completamente preparada para o que se adivinhava. Na verdade só sei que olhar para ela me acalmava. Ela provavelmente conseguiria safar-se, nem que fosse por apenas um bocadinho, ela conseguiria safar-se, tenho a certeza. Acho que a simples ideia de que haveria mais alguém a pensar como eu dava-me um ânimo enorme, forças para continuar, como se eu estivesse ligado a ela através de um ideal.
Passaram apenas 10 minutos desde que entrei nesta sala, ela encontra-se agora praticamente cheia. Um sujeito numa cadeira, uma cadeira livre, um sujeito... uma cadeira livre. São as instruções. Deixem todos os vossos pertences à entrada. Deixem tudo, livros, malas, telemóveis, qualquer marca da vossa individualidade. Tragam apenas o instrumento da vossa salvação e a identificação fornecida pelos agentes da tirania. Não somos nada. Somos sujeitos, identificados por números e de caneta na mão.
In "Minutos Apocalipticos"
Carlos Cardoso
16/03/07
segunda-feira, 10 de Março de 2008
Que piada...
Que piada…
Quero destruir tudo. Arrebentar com zonas protegidas, poluir mares, matar todos os animais que não fodem para salvar a própria espécie, se não lutam não merecem este privilégio de respirar nem um segundo mais.
Qual o propósito de proteger tudo e todos? Se eu evoluo através do sofrimento todo o mundo o pode fazer, todo o mundo deve sofrer da mesma maneira. Não haverá perfeição, não haverá harmonia, não haverá odes, sonetos, poemas de livre pensamento que lhes valha.
Haverá apenas ruínas, pó... evolução, perfeita, simples, matemática. Efeito de causa, bater de asas de borboleta no deserto. Quero destruir tudo o que é mais belo que eu, quero que sintam a dor da minha inferior mortalidade. É puro este sentimento de raiva... e ele persistirá. Eu sei que será sempre raiva, ódio e nojo. Tudo dirigido a mim. Deixem-me foder todo o mundo que se julga belo.
No meio das entranhas que se espalham pelo mundo, no meio do sangue que jorrará em esguichos seremos todos iguais, eu serei igual, todos me adorarão, todos se adorarão. Cada casa um templo, cada rua um caminho místico, cada beijo uma santificação. Beijem-me as mãos bestas. Serei reconhecido... e assassinado, eu, o agente desta destruição, deste Rift da realidade.
O mundo irá evoluir à minha custa, eu irei evoluir à custa do mundo. Mas que raio irei eu destruir?
Não destruirei aqueles que me observam com um sorriso... amigos. Que problema, amigos, destruir a realidade sem lhes tocar. Será que lhes devia dizer que as suas vidas são inúteis, simplesmente insignificantes no grande plano, no meu desígnio para a minha evolução? Olha que pena, irão odiar-me... mas nunca ignorar-me.
Não serei ignorado
Tens a certeza ó inútil?
Quem dis...
Tens a cabeça baixa pela vergonha... ou será pelo tiro que te deram!?
...
Parece que é pelo tiro...
Carlos Cardoso
08/10/05
segunda-feira, 3 de Março de 2008
Simples...
Simples...
Está ali, mesmo à minha frente. Penetra-me como um som vindo do meu passado. É o seu riso o som, a sorriso a imagem e os seus olhos uma faca. É tudo apenas um sonho, não posso saltar de imagem para imagem. Posso morrer num segundo e voltar noutro sem sentir dor? Posso, claro que posso, ela acabou de o provar. Não é preciso ser um sonho. É a realidade, a lamina é bem real. Mata-me numa noite e quando me levanto de manha não há um ferimento visível.
Mas sente-lo.
Sinto… perder uma esperança estúpida. Pensei mesmo que seria fácil, que ali estaria algum tipo de perfeição imaginada por mim. Infantilidade atrás de infantilidade. Não conheço um único ponto do seu mutável cérebro. A sua alma é-me tão estranha quanto os seus pensamentos.
A sua carne não te é estranha.
A sua carne pertenceu-me. O seu toque é ainda real… como se fosse num sonho, naquela dimensão para onde ela me levava. Posso sonhar acordado? Acho que posso; aquele toque era real? Qual é que era real afinal? Tenho marcas…
Já não tens, ela não tas deixou visíveis, os dentes… desaparecem.
Deixou marcas, ainda deixa marcas, deixará marcas. A sua mente deixa marcas, o seu toque deixa marcas… deixará. A sua marca será eterna. Nunca estarei sozinho, o quarto nunca estará vazio, o vento frio não fará nenhuma diferença. A musica… será 80’s… sim, o sonho disse-mo. Viverá no passado, para o futuro, faremos caminhadas místicas directamente para o Tibete, Suécia, Finlândia e de volta a Portugal.
De volta a Portugal?
Não há melhor som que o de Portugal, o vento numa arvore, o som da praia, as casas dos avós em ruas quase desertas, o som de motas antigas a passarem, a cortarem o ar com sons estridentes enquanto tento dormir uma sesta. Um gato a ronronar ronrona mais aqui. A relva é mais agradável aqui, dorme-se melhor aqui, não tem pulgas. E ela estará lá… a sua cabeça no meu peito, o seu cabelo a fazer-me cócegas… o seu corpo no meu.
Então queres fugir… com uma mulher que não conheces… para voltar a Portugal…
Sim… não é deliciosamente simples?
E vão como?
De comboio…
Espera… espera… não estávamos a falar de uma que já passou?
Não… é simples… foi um sonho… já não te posso contar sonhos?
Carlos Cardoso
03/03/08
segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008
Memorias de um pequeno bêbado...
Sou, serei.
Quero escrever, criar, destruir ideias, formular ideias e vê-las a tomar forma. Não consigo… quero escrever historias, fazer vidas, criar sentimentos. Não vejo mais nada à minha frente senão este desejo.
Não estou desesperado por uma criação, não tenho necessidade de esmagar papel em tinta, não tenho vontade de desesperar com palavras.
Tenho sim raiva; tenho ideias a espaços, fragmentos, partes de películas de filmes queimados pelo tempo. Ideias enormes gigantescas e maravilhosas que esbarram na realização. Tenho o começo e o fim, um nascimento e uma morte. Falta-me a vida…
Passei os últimos meses a pensar se me faltaria vida a mim próprio, tive nojo de mim por pensar que nunca mais conseguiria escrever.
Cego, completamente cego, perdido. Acima de tudo sou um escritor. Não importa ser publicado ou não, não importa se nada passo para o papel. Quero matar todos os que me exigem algo a que não têm direito. Sim, esmagar a traqueia da próxima pessoa que, com um sorriso de escárnio, me perguntar onde estão os meus manuscritos. – “Onde estão os teus livros? Esses textos?”
Será que preciso de por tudo no papel? Tenho mesmo de partilhar tudo com todos? São as minhas ideias, são a seiva que corre dentro de mim, são o cliché estupidamente repetido à exaustão, são partes de mim… sim, partes de mim! É assim tão difícil perceber que é tudo parte de mim? Porque pensam que quero partilhar com vocês?
Eu sei que isto pareceu totalmente despropositado e idiota, mas porque raios não entendem? A minha vida está a meio, sim, a meio, quem sabe no início. Quem sabe no fim para começar outra… tenho o meu mundo quebrado, arrastando-me o espírito para cantos escuros e frios que não conheço. Sinto o cheiro de sangue e carne suja lá, não fujo, sinto o cheiro e não tenho medo, nem sequer nojo… é cheiro de humanidade. É o meu cheiro que todos os dias tento disfarçar.
Perdi os alicerces que com as pedras construi (as pedras… só magoam se não as apanhares com as duas mãos antes de te atingirem.).
Como é que posso criar vida ou sentimentos? A minha própria vida foi-me tirada, se os meus sentimentos são incompletos como posso fingi-los para outros? Tenho raiva, toda a raiva, todo o ódio, toda a inveja (toda?). Preciso de compaixão, carinho e, por muito lamechas que seja… amor… preciso.
Não posso criar nada só com raiva e ódio. De vez em quando tenho pequenos lampejos desses sentimentos que não tenho e crio algo. São textos como este em que só me queixo e dou desculpas… mas não tenho opção (tens).
Vivo assim, incompleto… escrevo sozinho, leio sozinho, penso sozinho, vivo sozinho, morro sozinho… amo sozinho.
Onde estavam eles? Aqueles escritores que escrevem na miséria, aqueles que vivem num mundo lindo e de repente escrevem na miséria. Onde está esse interruptor mágico para essas dimensões onde, num momento tudo está bem, noutro estão na miséria e escrevem? Com um bocado de sorte Cthulhu está lá num bar a distribuir senhas para a miséria. É o negócio dele…
Tenho raiva… não há ninguém que tenha o direito de me pedir nada, o que eu dou, dou porque quero, dou porque é isso que quero. Aprendam de uma vez por todas, o meu destino é meu. Se os meus textos são meus não importam que seja bons, maus, bem escritos, com gralhas, com falhas. Eu escolho da-los e vocês têm apenas que os ler. Não mos peçam. Tenho o direito de os guardar para quem os dedico.
Tenho uma obra dentro de mim à espera que alguém ma arranque do peito… e por isso sou escritor.
Carlos Cardoso
18/10/05
sábado, 16 de Fevereiro de 2008
Sou Jean-Louis Lebris de Kerouac
Levanta-te do chão. Não estás ainda morto. Ainda há tempo.
Não consigo sentir nada.
Consegues sim, ainda há tempo.
Já não sou ele.
És sim, ainda choras ao ver aquele filme.
Aquele filme...
Sim, aquele filme que fala de esperança.
Ele não morre.
Nem tu morrerás.
Eu já morri.
Ele bem pensou isso durante 20 anos.
Eu tenho já quase 27....
Ainda não estás morto.
Estou sim.
Porque dizes isso?
Porque já não me consigo importar.
Então porque choras?
Porque estou triste.
Isso faz parte de ti, não é por causa disso que estás morto.
Estou morto.
Não estás nada, se estivesses ela não te iria procurar.
Ela quem?
Ela!!! Tu sabes, aquela que um dia virá.
Já veio.
Essa é simpática... mas não é ela.
Era.
Não é.
Como é que sabes?
Não estás com ela.
Não estou com ninguém,
Porque ela ainda não chegou.
Já chegou sim.
Burro.
Eu sei que sou.
Não és... mas ages como se fosses.
…
Levanta-te do chão, ao menos discute comigo.
De nada serve.
Serve sim... como é que serás como ele se nem sequer discutes?
É apenas a personagem de um livro.
O nome muda, mas ele viveu. A personagem é tão real como o que sentiste ao ler.
Senti...
E choraste, que bem me lembro, choraste.
Quero ser como ele.
Ele quem?
Aquele que viaja na parte de trás de uma carrinha à noite.
Então levanta-te.
Porquê? Não tenho aquele talento.
Tens, ele está guardado dentro de ti.
Já ninguém se importa.
Tu queres dizer elas.
Elas...
Elas importam-se... mas dás demasiada importância ás suas opiniões.
São as mulheres da minha vida... preciso delas.
Ela vai-te dizer que não importa, faz o que tens a fazer por ti.
Ela faz sempre tudo apenas por si... e é uma boa amiga.
E provavelmente sabe o que diz.
Sempre soube, é boa amiga.
As outras um dia saberão o que és.
O que é que eu sou?
Louco, desvairado que chora com esperança e medo.
Medo... quero ver aquele mar que um dia vi sem fim.
Volta lá no próximo verão.
Vou tentar, chorei ao vê-lo como nunca tinha chorado. Choro demasiado.
Choras nada, ninguém te vê, mas choras a quantidade certa.
Achas que mudariam a sua opinião sobre mim?
Não sei. Mas sei que nunca te deixariam sozinho.
Raramente deixaram.
As mulheres da tua vida... Aiii as mulheres da tua vida.
Só tenho quase 27 anos, não são assim tantas mulheres.
São as suficientes, loucas, carinhosas, silenciosas... que gritam.
Tenho saudades delas.
Dela.
Delas.
Tá bem, não discuto contigo nisso.
Delas, de uma só tenho saudades do que sentia, não por ela.
Então de quê?
Do sentimento...
Ela compreende, é tua amiga, não leva a mal.
Nem tem de levar.
Finalmente um bocadinho de emoção.
Cala-te.
Não me calo, não mandas em mim… levanta-te.
Já estou de pé, não chateies mais.
Jean-Louis Lebris de Kerouac
Achas que posso vir a ser como ele?
Porque não, ela um dia acreditou em ti.
Qual?
A do sentimento.
Ela acreditou em mim...
E ainda acredita.
É boa amiga.
Tenho saudades de me sentir daquela maneira... dava-me força.
Um dia ela chegará para te dar força.
Ela quem?
Ela... já te disse... ela.
Ahhhh, ela... eu acredito em ti.
E agora?
Agora levanto-me.
E que mais?
Agora vivo, respiro, sinto, faço, grito, salto, choro, choro, choro tanto...
Porque?
Porque sou Jean-Louis Lebris de Kerouac... e GRITO
SEREI AQUELE SER QUE NÃO PARA, SEREI AQUELE QUE CAMINHA, SEREI AQUELE QUE CHORA, SE AFOGA NAQUELE MAR... SEREI TANTO, TÃO FORTE, DE TANTAS MANEIRAS...
Serei... tenho de ser...
Vais ser.
Carlos Cardoso
16/02/08
segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008
Tive um sonho ontem... isto foi o que sobrou quando acordei.
Ele nunca a negaria. Mesmo com todos aqueles anos a pesar na sua mente ele sabia, a sua promessa mantinha-se. Quando ela o deixou pela última vez ele fez uma simples promessa. Nunca a negaria, fosse de que maneira fosse, a resposta dele seria sempre um sim, nunca a negaria. Estivesse ele casado ou não, mesmo que tivesse filhos, ele nunca a negaria. Mesmo que por um acaso do destino ele julgasse estar apaixonado por outra mulher, ele nunca diria que não.
Agora, anos depois, ela estava à sua frente, cheia de dúvidas, a pensar se estaria bem, se iria ficar bem, se algum dia poderia ficar bem a fazer aquilo.
Ele só pensava em responder-lhe, em dizer-lhe que sim. Ela só teria que lhe pedir uma vez, ou então levantar a cabeça. Pedir-lhe com palavras ou sem palavras… para ele era igual.
quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008
She holds all of my thoughts...
Lembro-me de a ter achado incrivelmente bonita, não porque era uma beleza canónica, mas sim porque era uma beleza que transparecia no seu sorriso, um sorriso que era tão característico dela, um sorriso desenhado por uns lábios bonitos, um corte de cabelo curto mas que dava vontade de lhe passar os dedos pela nuca. Lembro-me de lhe olhar para o decote e pensar que era, para usar um eufemismo muito forte, um decote muito lindo…
Lembro-me de entrar no quarto dela primeira vez, lembro-me de estar nervoso, muito nervoso, mas animado, excitado… quase feliz pela primeira vez em quase ano e meio. Ela saiu do quarto e fiquei quieto a observar a sua cama, as suas paredes… ela entrou e trouxe-me uma combinação estranha, gelado e uma bohemia para beber… ela tinha-se lembrado do que eu gostava, e isso fez toda a diferença, ela lembra-se sempre…
quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007
Desafio da menina Su.

Ora bem, a menina Soraia no seu blog http://suziinha.blogspot.com/ lançou um desafio interessante. Pois bem, aqui fica:
Hitomi Kanehara
Serpentes e Piercings
Página 30
Linha 12 e 13
"Esmurrou-o na têmpora uma vez, e outra, e outra. E quando o sangue começou a brotar, Ama não parou."
A letra de um bêbado.
Descobri hoje mais uma parte de mim. Algo que eu já sabia… mas que na verdade nunca dera a devida atenção. Cheguei a minha conclusão sobre a minha caligrafia, essa tão íntima expressão do meu ser.
Não sou, nunca fui nem serei nem pintor, nem musico nem escultor. Exprimo-me pela minha letra e pelas palavras que ela desenha. Esculpo figuras na mente de quem me lê, espalho tinta na tela das páginas vazias, moldo figuras incompreensíveis… a minha letra…
Porque não escrever com uma letra legível? Porque não deixarem pensar que compreendem os rabiscos? Acho que sei porquê, acho que me lembro. Desde o primeiro momento, desde a primeira vez que me indicaram o quadro negro, desde o momento em que peguei no giz que me sinto preso. “Faz assim, como eu mando, faz uma curva… assim, mexe-te…”. Ordem que nunca cumpria, não porque não fosse capaz ou não quisesse. Apenas a minha mão não se queria movimentar daquela forma; desejava outros movimentos, fortes, rápidos, livres…
Lembro-me de reguadas e berros que atingiam a ponta dos dedos, que esmagavam ossos, tudo por não seguir ordens.
Relutantemente aprendi, deram-me cadernos que mais pareciam ter apenas linhas grandes e linhas pequenas, tudo feito, esquematizado para controlar tamanhos, barrar e roubar a criatividade.
Percebi que letras grandes e letras pequenas não me deixam crescer, não me deixam ser livre. Querer inclinar as letras é assim tão mau!?
Hoje é livre a letra no meu livro, primeiro suspiro? Primeiro grito de liberdade? Dantes tinha medo, não mostrava cartas escritas à mão a ninguém por receio, temor de que não compreendessem as palavras… ou o que as palavras diziam.
Começar a mostrar a minha letra a alguém a alguém foi o meu primeiro passo… espero eu que tenha sido o primeiro passo. Ouvi falar tanto sobre a relação da letra com a personalidade. Pode ser verdade que todo o meu ser esteja contido nas minhas folhas?
Passo horas a pensar onde estará a porta que me mostre aquela mística libertação do meu ser, aquele zen puro feito de luz e orgasmos estúpidos e ridículos. Quero um símbolo, quero que a minha letra seja o começo de tudo o que me liga a todos.
Quero ser um escritor livre, de algum modo a minha letra tem de ter relação com isto. Não tenho que ser certinho, não tenho que ser grande quando todos o querem. Não serei nunca mais pequeno quando me obrigam.
Quero ser a minha letra, ir para um lado num momento e ir para o outro no seguinte, seguir frenético sem poder parar. Ser enorme quando eu o quiser, ser pequeno quando me apetecer. Quero manchar as folhas com riscos apagando os erros.
Quero que alguém faça como a lua fez uma noite…e em tantas outras noites… compreender a minha letra no primeiro texto… e quero que o resto se foda, para entender basta abrir os olhos.
Carlos
08/08/05
sábado, 17 de Novembro de 2007
Prenda de anos para a menina Angie :) Eu não me esqueço de nada...

Como em tantas noites em que sai com o pessoal que agora conhecia do meu primeiro ano de universidade, eu estava triste, a pensar nem sei bem em que, ou em quem, mas uma rapariga de caracóis que não me conhecia de lado nenhum, que me tinha visto apenas uma vez ou duas e nunca me tinha falado, virou-se para mim e perguntou:
- Que tens!?
Bem … isto para mim era novo. Ninguém me chateava com este tipo de perguntas porque, eu escondia bem o que sentia, e bastava o meu grande sorriso de plástico para aparentar estar bem. Claro que depois de dizer que estava tudo bem, que nada se passava e mandar o sorriso de plástico á personagem dos caracóis, ela vira-se e diz-me isto:
- Não estás nada bem, nota-se, diz lá o que tens!!!
Ora bem, isto meteu-me impressão, foi como ter encontrado alguém com visão raio-x para dentro do que eu sentia, não me lembro de mais nada nessa noite, mas lembro-me do dia a seguir.
Enquanto estava parado em frente á porta da aula teórica de ITIC lembrei-me do tédio que tinha sido a primeira aula teórica, e pus-me a andar dali para fora. Nisto encontrei-a dirigir-se para a aula, não sei porquê, mas convenci-a de que aquela aula era um desperdício de tempo e fomos tomar café. As próximas horas foram passadas a conversar, dei comigo a falar com ela sobre tudo e mais alguma coisa, dei comigo a confiar nela como nunca tinha confiado em quase ninguém, e o mais estranho, é que ela ouvia-me, não como alguém que ouve sem interesse, mas ouvia-me atentamente. Não ficava calada, algo que vim a descobrir ser impossível nela, mas falava comigo, contava-me coisas, interessava-se pelo que eu fazia. Era talvez a terceira ou quarta pessoa que eu conhecia com quem podia mesmo conversar. Sai daquela tarde a pensar que tinha ganho ali uma boa amiga, afinal de contas, ela passou duas ou três horas a ouvir-me falar de Senhor Dos Anéis e de como era lindo, e de como eu estava tolo por ir ver os filmes, escusado será dizer que a convenci a ver todos os filmes comigo no cinema. Aliás, esse tornou-se no nosso pequeno ritual, um de muitos.
Á medida que ia passando mais tempo com ela, ia conhecendo-a melhor, cheguei a um ponto onde acho que ela sabia tudo sobre mim e eu tudo sobre ela, os pormenores que me escapavam não me interessavam.
Das coisas que me lembro melhor são obviamente as manhas de segunda-feira passadas no “caloiro” a beber “Ucal” quente …. Ou a ferver, e eu a mostrar-lhe música no leitor de cd’s. Lembro-me também de que almoçávamos um com o outro todos os dias na cantina da universidade, ainda não sei o que raio me passava na cabeça para comer lá, a comida era um nojo, só valia pela companhia.
Lembro-me também das tardes passadas nos cafés á conversa com ela discutindo sobre se eu tinha olhado ou não para o rabo da empregada, rabo esse que só olhei por estar a cinco centímetros da minha cara, até hoje essa discussão continua.
Lembro-me do primeiro dos filmes que fomos ver ao cinema juntos, o “Scary Movie
Lembro-me perfeitamente de uma certa noite em que decidi apanhar uma gigantesca bebedeira porque ela não me ligava nenhuma por razões que aqui não escreverei. Para tornar uma história grande pequena, não apanhei uma bebedeira e a noite acabou muito melhor do que eu esperava. Se neste momento se estão a perguntar eu respondo, sim eu já estava completamente perdido por ela.
Nos próximos 3 meses mais ou menos, eu ora andava nas nuvens, ora o mundo desabava em cima de mim, normalmente andava nas nuvens quando a deixava e vinha para casa á noite, e de manha o mundo desabava, querem saber as razões!? Não digo, não têm nada que saber.
Quando tudo finalmente acabou e eu me apercebi, através dela, que já não havia nada que me fizesse andar nas nuvens fui para casa e dormi, acordei no dia seguinte como se me tivessem tirado algo. A diferença é que desta vez não me tinha tirado nada, e precisei de sensivelmente meio ano para ver isso. Afastamo-nos um bocado um do outro. Como ela dizia, tinha-mos confundido as coisas, ou pelo menos era o que ela achava. Algo do estilo de confundir amizade com amor, parvoíce se me perguntam, se alguém confundiu foi ela, mas também já não ando chateado com isso. Nos primeiros tempos pensava que já não havia equilíbrio na minha vida, mas estava enganado, equilíbrio não significa felicidade constante.
Passados uns tempos voltamos a dar-nos bem, muito bem de um momento para o outro, parecia que nada se tinha passado, era como o nosso segredo que ninguém sabia. Era como as nossas discussões sobre o rabo da empregada ou sobre o melhor fim para o nosso filme, acreditem ou não tínhamos um filme sobre o qual discutimos o fim através de mensagens de telemóvel, era o “O casamento do meu melhor amigo”, eu achei que tinha acabado bem, ela achou que tinha acabado mal, o normal.
De qualquer maneira, depois daquilo tudo ficaram apenas duas coisas, a amizade que apenas comparo á que tenho com o meu melhor amigo e a sua namorada, e o pequeno ritual que tinha-mos todos os natais. O ritual consistia em eu ir ver o “Senhor dos anéis” com ela. Podiam já não ter almoços com ela, podia já não passar horas a ouvir musica nas manhas, podia já não ter aqueles pormenores todos que tínhamos quando estávamos juntos ao princípio. Mas também, parecia-me a mim que já não precisava-mos de passar todos os minutos juntos um com o outro para estarmos felizes, encontra-la na universidade, quando saia á noite, quando ocasionalmente passávamos um dia juntos chegava perfeitamente, e isso agradava-me e ainda me agrada hoje. Ainda agora temos uma enorme amizade, e só tenho pena de uma coisa, não vou tantas vezes ao cinema com ela como gostava de ir, e o “Senhor dos Anéis” acabou, e não sei que raio de filme vamos arranjar para ver no natal.
E pronto, passados três anos é isto que tenho para contar, pormenores não há, isto chega para tudo o que queria dizer. Quem tem de perceber percebe.
Carlos Cardoso
Data desconhecida
sábado, 13 de Outubro de 2007
Nameless sensation...
Ultimamente a sua mente vagueava para a sua recordação mais vivida, aquela que lhe dava mais conforto... e também mais dor.
Aos 23 anos foi a primeira e única vez que se sentiu apaixonado. Recordava-se constantemente de noites passadas num banco de trás com apenas uma manta a cobrir corpos nús, corpos colados que partilhavam suor. E lembrava-se dela, do seu cheiro, dos seus movimentos, do seu toque, do seu gemido... dela.
sexta-feira, 16 de Março de 2007
Take a look at me...
Roubam-me pequenos pedaços da minha vida. Arrancam-me bocados de pele, deixam os meus ossos à mostra, depois pegam na sua carne podre e decadente e obrigam-me a engoli-la.
Sinto-me uma manta de retalhos feita com a vida dos outros, há pedaços de mim que não são meus. É carne que engulo sem ser minha, tenho músculos e nervos que não são meus, cresço sem o saber, modificam-me com estas violações do meu ser. Nada disto é meu e estou farto de fazer tudo aquilo que não desejo.
“Tens liberdade durante meses, quase anos…”
Mas que é que isso importa? A verdade é que eu não tenho a minima escolha, qualquer justificação é apenas uma tentativa de dizerem que a culpa não é deles. Mas é, e isso não vai mudar, a culpa é deles.
De que serve a liberdade se caminhamos para o fim dela? Usamos-la para quê? Para quem? Odeio-os, usam essa liberdade como quem usa um pin, uma t-shirt ou um corte de cabelo; é bonito, afirma algo e, no entanto, não significa nada das pessoas que somos. Somos um bando de inúteis provocadores. Provocamos nojo e náuseas, nada mais
domingo, 11 de Março de 2007
Loooove hurts!!!!
Mas se de há coisa que me lembro, é da primeira rapariga que demonstrou carinho por mim. Lembro-me que se chamava Sandra. Como é que é possível eu lembrar-me de algo da minha 1ª classe!? Não sei, mas lembro-me, lembro-me das suas tranças de cabelo preto, dos seus olhos brilhantes dos quais não me recordo da cor. Lembro-me de estar na 1ª fila e ela na 2ª mesmo por trás de mim, lembro-me de me virar para trás sempre que podia com sorriso envergonhado e pegar-lhe na mão, lembro-me dela a rir-se para mim com o mesmo sorriso. Também me lembro de ficar de castigo e levar reguadas na mão por me armar em esperto e virar-me para trás e perturbar a aula. Até com cinco ou seis anos o amor magoa.
In "a minha pequena vida"
domingo, 24 de Dezembro de 2006
Nada de mais...
Cheirou a morte, lambeu-a, tentou come-la, a pureza era ela, ali, morta, imóvel. Sentiu-a entre os dentes, sentiu-a desfazer-se na sua garganta… mas mesmo assim era inútil, ele queria a pureza nas mãos, queria senti-la nos dedos, vê-la com os próprios olhos, queria ser o Deus daquela pureza.
Não a viu, não a sentiu, de facto não sentia nada e pôs-se a pensar, se ele tinha consumido a pureza de tantas maneiras, então ela estava dentro dele. Sentiu-se enjoado com a ideia, mas feliz, riu como um louco, pegou no cutelo e abriu a barriga, cortou-se, viu o sangue cair, meteu a mão por dentro da barriga. Entre gritos de felicidade foi percorrendo o seu próprio corpo, ela haveria de ali estar. Por entre as descobertas do próprio corpo sentiu então o raio final, um relâmpago de dor atravessando-lhe o corpo, modificando-lhe todos os órgãos, destruindo-lhe tudo.
Carlos
terça-feira, 15 de Agosto de 2006
Porquê??
Porquê
Um dia perguntaram-me sobre o que queria escrever.
Quero escrever sobre tristeza. Porquê muitos perguntarão. Porque a tristeza é o que todos sentem sem excepção. Ninguém consegue escrever sobre felicidade apenas. Podem referi-la, dizer que estão num estado de felicidade e beleza constante e inigualável. Mas a felicidade só é atraente se antes houve tristeza e miséria. De que outra maneira poderiam as pessoas avaliar o quanto amam alguém que durante anos lhes fugiu? Como poderiam as pessoas sentirem-se felizes com um abraço, se antes não sentiram falta dele? É impossível sentirem-se agradecidas por um beijo se não passaram dias e meses a sonharem com ele.
Há aqui um equilíbrio macabro, felicidade só é felicidade se a tragedia tiver acontecido. Felicidade só é felicidade se a tragedia acontecer. Quando se perde alguém todas as recordações são melhores, mais vivas, mais doces e mais poderosas.
Quando algo de bom acaba não se pensa no que aconteceu de mau, mas sim no que nos faz sorrir… ou até chorar, mas nunca no mau.
Então porque razão nunca escrevo da felicidade que antecede a tristeza!? Simples, ninguém sabe como essa felicidade é boa. Sabem apenas que a tristeza é má. Ao saberem isso irão adorar cada momento de felicidade que lhes der.
Então porque não escrever sobre a felicidade que vem depois da tristeza? De novo simples. O que interessa não é o resultado, mas sim o que se fez para lá chegar, a caminhada. Se lhes mostrasse apenas felicidade que veriam eles? Algo vazio, simples. Bom, mas sem sacrifício. Mostrando o caminho árduo que se percorre não importa o final, ele será sempre bem-vindo.
Da mesma maneira que vivo, escrevo. Não me escondo da tristeza, lamento-a e deixo-a passar, lentamente, mesmo que me sufoque, mesmo que tenha de lutar contra ela. Faz parte de mim, esmaga-me a cada dia que passa e, só espero pacientemente que, ao levantar a cabeça veja algo mais… algo mais simples e directo. Nem que seja uma simples conversa entre quem nunca se conheceu. Nem que seja uma conversa em quem se está a conhecer, porque nunca se sabe, pode sempre vir dali um pequenino momento de felicidade. Um pequeno instante que agarrarei com todas as forças, um pequeno instante a que me entregarei até sufocar como se me afogasse.
Haverá felicidade na minha vida e na minha escrita, eu sei-o, mas será sempre através da tristeza… sempre foi…
Carlos Cardoso
15/08/06
segunda-feira, 5 de Junho de 2006
Caminha comigo...
Caminha comigo
Nunca ninguém pensa verdadeiramente nisto. Era estúpido se assim fosse. Sabes disso não sabes? Que estúpido seria, levantares-te a meio da noite e pensares que mais valia fazeres parte do pó cósmico, do inaudível grito da humanidade.
Nunca acontece, afinal de contas somos saudáveis, temos comida na mesa, uma cama quente, amigos que nos adoram e família que nos ama. Levantamo-nos de manha e temos um trabalho, ou pelo menos alguns têm. E é bom, é muito bom saberes que vais ganhar dinheiro e contribuir com algo para algo. Se não tens trabalho estudas. Aprendes, evoluis e tornaste em algo melhor. Pensas que não pensei nisto? Pensas que em todos estes momentos a minha mente não se questiona sobre se será mesmo isto?
Eu vou falar e tu vais ouvir, vais ouvir como se eu estivesse prestes a dar-te dinheiro. Só assim terei a tua atenção sem nenhuma interrupção. A minha vida é como caminhar em Aveiro à noite. Começa pelo sítio das luzes, uma rotunda desnivelada onde toda a gente passa para fazer duas coisas; ou vão comprar algo para um dos lados, satisfazer essa sede ou, vão satisfazer outra sede na praça.
Cala-te e não me julgues snobe e arrogante por dizer que são todos consumistas e bêbados. Eu sei que são assim porque eu também o sou, sou uma daquelas pessoas que tendo dinheiro compra, tendo dinheiro gasta numa bebida à noite. Sim, eu sei que sou assim, não porque seja fraco mas porque sou apenas eu, eu e mais ninguém, e sou igual a tanta gente que me mete nojo. Eu sou eu, único na minha parecença com todos.
Mas há uma diferença entre todos e eu, eu caminhei mais alem, para fora das luzes subi pela avenida exactamente à meia-noite. E deixa-me que te diga o que vi, uma cidade prestes a perder o brilho, uma cidade abandonada e demente. Já olhaste bem para o Oita? É uma pena, um dia foi o centro de Aveiro. Agora, no meio de uma avenida cada vez mais escura e solitária, ele agarra-se com unhas e dentes ao passado, tentando sobreviver, aceita tudo o que aparece, lojas estranhas que ninguém quer e filmes lindos e desconhecidos. Já olhaste para as pessoas que frequentam este sítio durante a noite? Proscritos da cidade, moradores do passado.
Mas esta parte nem sequer é a má. Esta ainda vive, agarra-se com tudo o que tem à vida. Se caminhares mais vês os prédios mais antigos, as rachas que agora esfolam as paredes, os antigos estabelecimentos de outrora com sinais de “trespassa-se”.
E depois olha para ele, um simples cinema fechado, aquele que foi para mim o cinema mais confortável de todos os tempos. Sabes que ainda me lembro da noite de estreia do Batman, o primeiro, o do Tim Burton. Acreditas que havia uma fila até cá fora para entrar? Eu lembro-me dos meus pais me levarem, lembro-me de os ouvir falar sobre se conseguiriam comprar bilhete. Fiquei triste ao ouvir isso mas o meu pai lá comprou os bilhetes, e lembro-me do sorriso da minha mãe ao ver-me a entrar para o cinema e sentar-me mesmo no meio da sala. Foi a ultima vez que me senti puro e sereno com felicidade.
Se olhares para lá agora está fechado e sujo, ninguém vai lá e à noite é apenas um lugar escuro e morto. Os postes de luz são antigos e a sua luz fraca, as árvores gigantes da avenida tapam-nos e, de vez em quando, lá passa um carro em direcção às luzes.
É aqui que acaba, não porque quero que acabe mas porque simplesmente acaba.
Estudo e vivo, amo e sou amado, compro, bebo, observo e caminho. Sinto-me como esta cidade, uma luz enorme ao princípio, tal como a minha vida. Lentamente tudo passa, ficam memórias e velhos hábitos. Memórias boas e carinhosas, até ao dia em que começam a pesar, depois fecham-se e tornam-se escuras e velhas até serem tão pesadas que não as consigo carregar.
Por isso caminhei até aqui, até ao fim da avenida, por isso te pedi que viesses cá ter comigo.
Para em frente à linha e diz-me o que vês.
- Nada, não vejo nada de diferente. –
Então olha para os dois lados.
- Uma linha de comboio, uma para sul, outra para norte… –
Eu não posso ficar aqui, tenho de ver mais, de viajar mais, de pensar mais, de me sentir mais feliz e, esta cidade é pequena e morre. A cada centímetro dela que morre eu morro, a cada parede que racha uma memória minha se esvai… compreende por favor.
- Faz o que tens a fazer, sempre é melhor que te tentares matar de novo, tens razão, nunca ninguém pensa verdadeiramente em se matar, nunca ninguém acorda com suores frios a meio da noite com medo de viver. É impensável a alguém feliz que isso aconteça. Só que tu não és feliz –
Ainda bem que compreendes. –
Hoje é dia 5 de Junho, são 00:45 exactas. Daqui a um ano estarei aqui à tua espera, nem mais um segundo. Adeus –
Adeus.
Nunca pensei em matar-me… mas tentei faze-lo, nunca pensei em ama-la… mas amei-a, nunca pensei em fugir… mas estou a fugir, não penso em voltar, mas nunca se sabe…
Vou para o sul, o norte é demasiado amigável.
Carlos Cardoso
05/06/06
segunda-feira, 22 de Maio de 2006
Que tipo de morte és tu?
Vamos fugir, só durante um bocadinho. Arranjamos o teu carro e fugimos para um sítio que tenha sol, é simples, eu tenho um pouco de dinheiro guardado, nunca o gastei, nunca tive ninguém com quem o gastar. Eu arranjo um emprego quando lá chegarmos. Ninguém precisa de saber, ninguém precisa de nos impedir.
Não temos que ficar aqui, não temos de sentir todo o peso.
Vens comigo ou não? Sabes bem que não há aqui nada para ti. Não temos amor, não temos sorte, não temos felicidade. Foge comigo, só durante um bocadinho. Vamos pela estrada fora, é Verão e ninguém precisa de vir atrás de nós. Nunca ninguém virá atrás de mim e, os que vierem atrás de ti desistirão. Vamos guiar de noite, dormir de dia numa praia, dentro do carro, à beira da estrada, em algum sítio.
Deita-te comigo e toca-me com a coxa, abraça-me pelas costas, beija-me a nuca e arranha-me o peito. Torna-me único com as marcas dos teus dedos, com o sabor da tua língua. Torna-me naquilo que durante anos não fui. Liberta-me, eu prometo que um dia farei isso por ti. Não chores mais, não esmagues a cabeça contra o volante, não apertes o peito nas mãos. Usa este carro para fugir, se não tens nada aqui foge.
Disseste-me que aceitavas. Uma noite, só terias que aguentar uma noite e mais nada. Às 5 da manha eu estaria ai, exactamente quando o sol nascesse. Deixarias tudo para trás, essa casa cuja forma parecia pairar sobre ti. Essa repressão, uma necessidade de a manter arrumada que te mantinha constantemente assustada, o peso de um punho que se abatia sobre ti se algo estava fora do lugar. Disseste-me que o meu toque te acalmava, sussurraste-me ao ouvido que um dia o meu olhar te fez sentir desejada. Eu sei que sou novo, mas poderia ter fugido contigo, eu sei que tinhas apenas 32 anos e eu metade disso, mas eu podia ter-te protegido.
Cheguei a tua casa e escondi-me na garagem durante 20 minutos. Não ouvi nenhum som durante esse tempo todo. Deixei a minha mala no chão e entrei na casa, um silêncio enorme habitava cada divisão daquela lúgubre casa de dois andares. Visitei cada quarto e encontrei-te a ti na cama onde te tive pela primeira vez, não na tua que essa tinha te violado. Encontrei-te no quarto ao lado, no quarto que seria um dia para a tua filha que nunca nasceria. Encontrei-te com o lábio desfeito e um olho negro e pensei que estarias a dormir. Encontrei-te morta, com uma garrafa de gin e um frasco de comprimidos vazio. Tinhas a camisa rasgada, o peito à mostra, as marcas de dedo ainda lá subsistiam.
Disseste-me que o teu coração era meu e, durante 1 hora olhei-te em silêncio, convencido que não conseguiste aguentar nem mais 1 minuto. Fui à cozinha e trouxe uma faca afiada. Abri-te o peito, desfiz tudo até chegar ao teu coração. Não o tirei porque ele não me pertencia. Em vez disso tirei do bolso o pequeno colar que tinha comprado no dia anterior, o símbolo do nosso recomeço, uma pequena pedra azul. Um azul tão profundo que só existia nos teus olhos. Coloquei-o em cima do teu coração e sai. Peguei no teu carro e fugi, fui viver a nossa vida. Não durou e cedo me juntei a ti.
Carlos Cardoso
22/05/06
quarta-feira, 26 de Abril de 2006
Amor e Desespero...
Amor e desespero
Então queres que pense? Então queres que sinta algo? Queres que arranque algo de mim? Queres que faça algo comigo? É simples o que pedes com os olhos, é simples o que pedes com a carne do teu pescoço. Queres que me liberte ainda mais. Se eu pudesse mostrava-te o quanto a decadência da carne me enoja. Se eu pudesse mostrava-te o quanto os livros me irritam, o que eu os odeio. Amo-os, sabes disso? Com cada palavra inscrita no papel eu perco um pouco de mim. Quero escrever as minhas letras como runas. Que sobrevivam ao tempo e ao escárnio.
Odeio tanto as páginas dos livros, odeio-as tanto que tenho vontade de as arrancar, amarrotar, enfia-las na minha boca, esmaga-las entre os meus molares, dilacera-las com os meus caninos, amacia-las com a minha saliva. Tornar todas aquelas palavras, historias, personagens, amores, sexo, traição e sonhos uma parte de mim. Envia-las para o ácido do meu estômago e tornar-me um livro para que me leias.
Haverá metamorfose mais perfeita? Poderias deitar-me na cama, na relva ao sol, folhear-me com os teus dedos, beijar-me com os teus olhos, provar-me com a saliva presa aos teus dedos, deixar que o vento me virasse as paginas conforme o destino te vira o que sentes? Leva-me para onde quiseres, escondido dos olhos de todos, tal qual um livro indecente sobre sexo. Poderias ostentar-me orgulhosamente como um bastião da tua liberdade, da tua sexualidade perfumada, da tua alguma coisa que me faz virar a cabeça e sorrir desesperado.
Sublinha em mim todas as passagens que gostares, anota em mim os meus defeitos e virtudes, enche-me de vergonha, mostra-me o que tenho a temer. Berra aos meus ouvidos uma gargalhada sonora que me faça sangrar os meus medos.
Olha-me para lá da minha capa escolhida por outros e diz-me que nome seria apropriado para o meu mundo.
Queres que te diga que nome te dou? Já te li muitas vezes, chamo-te amor e desespero. Odeio-te como odeio todos os livros por inveja, amo-te como amo todos os livros por ler, todas as páginas por arranhar, todas as letras por cheirar!!! Amo-te sem nunca te ter visto, porque nunca te li, e tenho medo que, depois de te ler e abraçar aquele FIM, só reste ódio, por não ser como tu, por não saber escrever como naqueles livros.
Para quem ainda não li.
Carlos Cardoso
26/04/06
quarta-feira, 5 de Abril de 2006

Roll, roll, roll your joint.
Twist it in the end,
Light it up and take a puff
Then pass it to a friend!
sexta-feira, 31 de Março de 2006
Vulto...
Quis desaparecer para as sombras, tornar-me num espectro errante sem sentimentos. Tornar-me numa brisa fria que corta esquinas de ruas nuas. Nada mais. Não viver, não sentir, não amar, não odiar.
Queria que a minha pele se desfizesse e os meus ossos se enterrassem na terra. Lá aguardaria o fim de tudo. Do mundo, da humanidade. Da existência. Deixei-me cair no chão molhado. Nada importava. A vergonha era a ultima coisa que sentiria, a vergonha seria o meu túmulo.
Pensei em ficar ali sentado até o meu pó se fundir com o alcatrão. Esperaria a morte como quem espera pelo fim da tarde no verão. Ficaria calmo, não reclamaria. Nada me faria mudar, manteria os olhos abertos para poder chorar, para poder deixar a dor sair através de lágrimas.
Ali ficaria o meu espírito, tão leve naquele chão que nem o vento daria por ele. Caminhariam sobre mim se o deixasse. Não importava, ninguém me iria ver. São escolhas que se fazem, é o destino que escolhi para mim. Somos o que somos e não podemos fugir disso, nunca poderemos mudar. Mesmo que me levantasse e fugisse até ao Tibete o sol seria o sol, o vento seria o vento. As pessoas seriam as pessoas… e eu seria o mesmo. Ficaria ali, pequena sombra na esquina, caminhassem sobre mim e eu não o teria sentido. Esperaria o fim do mundo.
In "Desespero"
Carlos
quarta-feira, 29 de Março de 2006
Não importa...
Sem dar bem conta tinha-me sentado num sítio onde as pessoas paravam para conversar, mas também ninguém olhou de lado para mim.
De cerveja na mão deixei-me estar. Fui apanhando as conversas pelo ar. Um rapaz dizia a uma rapariga para não levar algo a mal, que até a curtia muito. Notava-se que estava bêbado, falava com a cara demasiado perto dela. Ela, incomodada, queria ser salva, queria sair da frente daquele hálito. Clamava por uma amiga qualquer, uma que a tirasse dali. Mas não haveria ajuda para ela.
A outra amiga estava agarrada ao braço de um rapaz muito mais alto que ela. Ria-se das suas piadas mas não porque queria parecer bem ao pé dele. Ria-se porque achava mesmo piada. Ele por sua vez corava quando ela soltava uma gargalhada e instintivamente se chegava a ele. Provavelmente iriam acabar juntos. Eram demasiado carinhosos um com o outro. Demasiado cuidado que ele tinha, não lhe tocava com força, não a puxava. Deixava o seu corpo balançar com o dela, se ela se inclinava ele inclinava-se. Se ela lhe tocava nas costas ele arrepiava-se e mantinha-se direito. Estava nervoso.
Ao lado estava um outro rapaz, tinha roupas novas, muito novas mesmo, pareciam acabadas de estrear.
Dizia para quem o quisesse ouvir que, se dava com todos, para ele não havia problemas. Será que se poderia dar comigo?
Será que gostaria de juntar o seu casaco castanho e limpinho à sujidade do meu? Será que não olharia para mim de cima? Mas também, que raio importava isso. Tudo isto durou um cigarro e meia cerveja.
In "Desespero"
Carlos
domingo, 19 de Março de 2006
Deixa-me sonhar...
Acendemos um charro e ouvimos Led Zeppelin, The Doors e Dark, fechamos os olhos e abanamos a cabeça.
Sonhamos em ser Tony Wilson a assinar contratos com sangue num guardanapo de papel.
Choramos sozinhos porque não pertencemos a este mundo, queremos criar algo lendário e não conseguimos. É esta a nossa grande tragédia, um mundo cheio de sonhadores de 22 anos sem nada para fazer, ninguém confia em nós para revitalizar a cadeia de sonhos.
Não é a nossa geração que está morta, a nossa agarra-se com unhas e dentes aos sonhos. A próxima geração morrerá quando lhes formos dizer que não temos nada para lhes contar. Estudei, trabalhei, tive um filho e morri. O resto é estática.
In "Sucumbo" - Carlos
Eternidade
Era sempre de noite naquele banco traseiro do teu carro. Sempre com frio. Julgamo-nos especiais, ligados por algo transcendental quando te disse – tapa-te, estás com frio – olhaste para mim incrédula, sem saber o que dizer porque tinhas as pernas arrepiadas. Tinhas acabado de pensar que estavas com frio e eu disse-to. Ligados por telepatia. Pensamos logo que ficaríamos juntos para sempre. Já estávamos ligados.
Pensei que nada se podia comparar aquilo. Disse-te que cada momento passado naquele sítio era como uma porta para outra dimensão. A partir do momento em que te beijava, em que deslizavas para fora da tua roupa. A partir do momento em que te mordia o ombro, em que me arranhavas o pescoço, em que me mordias o queixo, era de outra dimensão, de outro plano.
Passei-te a mão pela coxa, senti a tua pele arrepiada. Estavas mesmo com frio, na altura ri-me com a coincidência, mas dei um valor enorme aquilo. Eram coisas que apenas aconteciam na nossa dimensão, no nosso mundo. Uma dimensão nocturna do banco traseiro do teu carro. Era tão diferente como aquele mundo que se abriu quando, pela primeira vez, toquei no teu corpo nu. Era um mundo tão poderoso como aquele que se abriu no dia em que fizemos amor pela primeira vez.
Podias ter parado… podias ter dito algo, podias ter dito que apenas tinhas prometido ser para sempre minha, apenas naquela noite eterna. Para sempre minha, num mundo eterno que se abria para nós, uma dimensão que acabava quando saímos daquele carro e íamos para casa. Uma eternidade nessa dimensão, uns meses no mundo real….
Carlos
25/02/06
Pára
Pára, só desta vez. Peço-te que pares de sonhar. Peço-te que pares. Põe um travão nesses teus sonhos. Pára de me chatear, pára de me atormentar, deixa-me estar na minha pasmaceira.
Não me faças chorar, por favor, só desta vez não me faças chorar. As tuas palavras não são sem significado, bem o sabes. Mas pára, só desta vez deixa-me estar em paz.
Não me ouves, pára de me destruir a calma que me permite continuar a levantar-me de manha. Pára por favor, tudo o que quero está lá fora. Essas palavras são desnecessárias, só podem fazer mal. Pára de me encurralares neste desespero. Não quero sonhar, quero ser pequeno, quero ser insignificante. Pára, eu não sou um génio. Eu não quero criar algo. Pára, essas palavras são violentas. Pára, não me magoes mais. Deixa-me ir embora, deixa-me sair deste beco. Pára por favor, essas palavras não são triviais. Pára, deixa-me estar sem criar. Pára, deixa-me em paz. Não quero pegar nessa caneta. Pára, não quero estar triste, não quero mais dor, quero largar a caneta e sentir-me a desvanecer. Não quero mais que tu me faças sofrer. Dorme por favor, adormece.
Eu lembro-me quando não eras assim. Lembro-me de quando eras simples. Pára de gritar por favor. Eu lembro-me da altura em que falavas comigo sem dor. Éramos felizes, éramos tão felizes na nossa ingenuidade. Não havia dor, peso. Não sabíamos nada, éramos tão felizes e inocentes. Lembras-te? O mundo não pesava. O mundo não magoava.
Lembras-te de quando tudo era simples?
Eu só queria parar de pensar… e o meu cérebro não me deixa…
Carlos
20/02/06



