domingo, 12 de outubro de 2008

O teu homem...


A voz falou!

Há um demónio à tua porta, esperando atrás da porta. Está molhado com a chuva de Dezembro, está molhado com ódio…

É um cão a uivar, a raspar as patas imundas na porta, há um demónio à tua porta… É o teu homem, tu própria o admites, conheces o cheiro, conheces o barulho ofegante da respiração; é o teu homem, há um demónio à tua porta.

Não me calo!! Ali está o teu demónio. Tem frio, está molhado, é malvado e quer mais, quer mais… dá-lhe mais, dá-lhe mais… Ouviste o que ele disse? Ele vem a subir até à tua porta. Não o obrigues a uivar, não o obrigues a arranhar a porta, não o obrigues a exigir…

Há um demónio à tua porta… e ele sente, ele cheira, ele raspa os dedos no corrimão da escada…

Ele vem aí! Eu sei!! Ele vem para a tua porta… Tira o vestido, ele vem aí, o demónio, o cão imundo, o teu homem vem para a tua porta, não o sentes?

Para que acendes a luz?! Não há luz, a tempestade destruiu os postes, estão no escuro. Estúpida!! Se a tempestade destruiu os postes de electricidade também não achas que deitou abaixo os telefones?! Pára de evitar o demónio, o cão, o teu homem está à tua porta.

Calma… isso, vês como consegues? É o teu homem, não é nenhum demónio, não é nenhum cão malcheiroso, isso é apenas a tua estúpida imaginação… Ouve-me antes a mim, eu sei, eu sei tudo e sei como te sentes; é o teu homem à tua porta. E cheira a cerveja!!! E então?! É teu homem…

Cala-te! Eu mando!! Eu faço tudo, eu mando em tudo…

Eu sou os teus olhos em todo o lado, tu vês por mim!

Eu sou a tua dor enquanto te penitencias, sou a vergonha quando te arrependes.

Eu sou a tua verdade enquanto mentes sobre essas marcas vergonhosas!

Tu sabes… é triste, mas é verdade… Eu faço as tuas desculpas, eu sou o teu álibi em tudo, eu sou a tua redenção, a tua desculpa perante Deus… Agora pára de ofender o teu homem!!

É demónio? Não é! Ou talvez seja… é grandioso como um, enorme em tamanho, o seu cheiro exala tudo o que é pérfido, o que é prazer culpado… Sim, é demónio nessa perspectiva mas tu sabes que gostas.

Isso, está escuro, pega no castiçal, esse castiçal negro, fino, trabalhado em ferro e cuja extremidade afiada contém uma vela redonda nela espetada. Vês como esse castiçal lhe serve? É belo, é mesmo para ele, para o teu homem, para o teu demónio único.

Abre-lhe a porta.

Olha a tua porta a abrir-se. O demónio entra a arfar, a suar, a expirar, a babar-se. Olha como o amas, como o admiras!

Cala-te! Essa sensação de adrenalina não é mais do que excitação por o veres! Não é medo! Vês como te deitas na cama de pernas abertas?!

Dá-te ao teu homem. Dá-te ou ele chateia-se, não grites, tu mereceste esse soco, lembra-te que ele manda em ti!

Agora sangras, a culpa é tua, bem te avisei… agora deixa-o arrancar a tua roupa. Choras? Porquê?? Aahhh….felicidade! Sente-o a entrar em ti… Vê como gostas…

Serás sempre dele, do teu demónio, nunca lhe escaparás, eu sei… eu sei como sempre irás gostar disto…





O que estás a fazer?! Larga o castiçal! Não vês como ele se sente bem assim?! Porque apagaste a vela? Ele precisa de luz, será que não pensas nele?! Sua puta egoísta!

Porque tiras a vela? Pára! Não lhe faças isso! Ele não merecia esse castiçal espetado no seu peito… tudo o que fez…foi por te amar…

Não me ouves?! Porque não te consigo falar? Pára! Eu amo-te…não me afastes: ouve-me… sempre tomei conta de ti…



A voz calou-se… e o choro ouviu-se, confundido com a chuva na janela…





Carlos Cardoso

06/12/04

2 comentários:

Flávio Neto disse...

Os demónios que invocas são fortes, são brutais e presentes, sangrentos e irracionais, são a cornucópia do real e do mal.
Alias é só na realidade é que se pode ver o mal, o resto são pálidas caricaturas...

Sirlene Jacquie De Paula disse...

Conheço esse texto, muito bom. Vc me mandou quando eu estava no Brasil....ainda tenho-o até hj. Mt bem escrito......