segunda-feira, 31 de março de 2008

Tempo

Tempo

Tempo de escrever algo. Comprei este bloco, não porque tenho de escrever, comprei-o porque está na hora de começar

Caminho à chuva com um vento enorme e oiço Jack… Jean… qualquer nome serve. Aulas aborrecidas, a poesia espanhola é interessante mas não hoje, não hoje que tomei um comprimido para alergias… e dá-me sono.

Abre os olhos e segura a cabeça, isso. Encontrei o David, dá-me a mesma conversa amigável de sempre: “ bora beber um copo um dia destes, pelos velhos tempos, um sixpack nos bombeiros.” Quais velhos tempos, foi apenas o ano passado, não são tão velhos assim Jack ou Jean fala de S. Francisco. Mágico e estou obcecado. Tenho de comprar um caderno e o piano toca nos meus ouvidos. Lá está, ele, o louco, havia de gostar de falar com este saxofone. “the tree looks like a dog, barking at the heavens”. O louco compreenderia, o analista apreciaria, sim ele, o analista.

Compro o caderno, mas antes vejo um dos amores. Cabelo para trás pelo vento, olá e adeus. Não é sempre assim? Comprei o caderno, primeiro passo dado.

Carlos

10/03/08

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pequenos pedaços de pedaços...

Agora observo eu, um gabarola gordo, de barba imperfeita e dentes tortos, voz de grunhidos e burro que nem uma porta. Mas ele estava confiante, seguro que nada lhe aconteceria. Provavelmente estaria muito mais seguro que eu, mais preparado. Ele teria assimilado todos os ensinamentos, todos os códigos, todas as directrizes que lhe foram alimentadas. Mesmo assim ele falharia, era simples, confiança a mais mata, eu sei-o. Quando era mais jovem era confiante, praticamente arrogante. Deixei de o ser quando cai, a confiança não leva a lado nenhum, apenas engana. Este sistema quer-nos assustados, quer que deliremos com tudo o que dizem mas, não quer que o questionemos.

Do outro lado da sala estava uma rapariga ruiva de cabelo curtinho que parecia mal cortado, trazia um gorro que lhe deixava cair a franja e bocados de cabelo para fora. Estava sentada a olhar para a mesa em sua frente. Observei-a durante uns minutos, ela parecia calma, serena, talvez conformada com o que se iria seguir. Talvez estivesse completamente preparada para o que se adivinhava. Na verdade só sei que olhar para ela me acalmava. Ela provavelmente conseguiria safar-se, nem que fosse por apenas um bocadinho, ela conseguiria safar-se, tenho a certeza. Acho que a simples ideia de que haveria mais alguém a pensar como eu dava-me um ânimo enorme, forças para continuar, como se eu estivesse ligado a ela através de um ideal.

Passaram apenas 10 minutos desde que entrei nesta sala, ela encontra-se agora praticamente cheia. Um sujeito numa cadeira, uma cadeira livre, um sujeito... uma cadeira livre. São as instruções. Deixem todos os vossos pertences à entrada. Deixem tudo, livros, malas, telemóveis, qualquer marca da vossa individualidade. Tragam apenas o instrumento da vossa salvação e a identificação fornecida pelos agentes da tirania. Não somos nada. Somos sujeitos, identificados por números e de caneta na mão.

In "Minutos Apocalipticos"

Carlos Cardoso

16/03/07

segunda-feira, 10 de março de 2008

Que piada...

Que piada…

Quero destruir tudo. Arrebentar com zonas protegidas, poluir mares, matar todos os animais que não fodem para salvar a própria espécie, se não lutam não merecem este privilégio de respirar nem um segundo mais.

Qual o propósito de proteger tudo e todos? Se eu evoluo através do sofrimento todo o mundo o pode fazer, todo o mundo deve sofrer da mesma maneira. Não haverá perfeição, não haverá harmonia, não haverá odes, sonetos, poemas de livre pensamento que lhes valha.

Haverá apenas ruínas, pó... evolução, perfeita, simples, matemática. Efeito de causa, bater de asas de borboleta no deserto. Quero destruir tudo o que é mais belo que eu, quero que sintam a dor da minha inferior mortalidade. É puro este sentimento de raiva... e ele persistirá. Eu sei que será sempre raiva, ódio e nojo. Tudo dirigido a mim. Deixem-me foder todo o mundo que se julga belo.

No meio das entranhas que se espalham pelo mundo, no meio do sangue que jorrará em esguichos seremos todos iguais, eu serei igual, todos me adorarão, todos se adorarão. Cada casa um templo, cada rua um caminho místico, cada beijo uma santificação. Beijem-me as mãos bestas. Serei reconhecido... e assassinado, eu, o agente desta destruição, deste Rift da realidade.

O mundo irá evoluir à minha custa, eu irei evoluir à custa do mundo. Mas que raio irei eu destruir?

Não destruirei aqueles que me observam com um sorriso... amigos. Que problema, amigos, destruir a realidade sem lhes tocar. Será que lhes devia dizer que as suas vidas são inúteis, simplesmente insignificantes no grande plano, no meu desígnio para a minha evolução? Olha que pena, irão odiar-me... mas nunca ignorar-me.

Não serei ignorado

Tens a certeza ó inútil?

Quem dis...

Tens a cabeça baixa pela vergonha... ou será pelo tiro que te deram!?

...

Parece que é pelo tiro...

Carlos Cardoso

08/10/05

segunda-feira, 3 de março de 2008

Simples...

Simples...

Está ali, mesmo à minha frente. Penetra-me como um som vindo do meu passado. É o seu riso o som, a sorriso a imagem e os seus olhos uma faca. É tudo apenas um sonho, não posso saltar de imagem para imagem. Posso morrer num segundo e voltar noutro sem sentir dor? Posso, claro que posso, ela acabou de o provar. Não é preciso ser um sonho. É a realidade, a lamina é bem real. Mata-me numa noite e quando me levanto de manha não há um ferimento visível.

Mas sente-lo.

Sinto… perder uma esperança estúpida. Pensei mesmo que seria fácil, que ali estaria algum tipo de perfeição imaginada por mim. Infantilidade atrás de infantilidade. Não conheço um único ponto do seu mutável cérebro. A sua alma é-me tão estranha quanto os seus pensamentos.

A sua carne não te é estranha.

A sua carne pertenceu-me. O seu toque é ainda real… como se fosse num sonho, naquela dimensão para onde ela me levava. Posso sonhar acordado? Acho que posso; aquele toque era real? Qual é que era real afinal? Tenho marcas…

Já não tens, ela não tas deixou visíveis, os dentes… desaparecem.

Deixou marcas, ainda deixa marcas, deixará marcas. A sua mente deixa marcas, o seu toque deixa marcas… deixará. A sua marca será eterna. Nunca estarei sozinho, o quarto nunca estará vazio, o vento frio não fará nenhuma diferença. A musica… será 80’s… sim, o sonho disse-mo. Viverá no passado, para o futuro, faremos caminhadas místicas directamente para o Tibete, Suécia, Finlândia e de volta a Portugal.

De volta a Portugal?

Não há melhor som que o de Portugal, o vento numa arvore, o som da praia, as casas dos avós em ruas quase desertas, o som de motas antigas a passarem, a cortarem o ar com sons estridentes enquanto tento dormir uma sesta. Um gato a ronronar ronrona mais aqui. A relva é mais agradável aqui, dorme-se melhor aqui, não tem pulgas. E ela estará lá… a sua cabeça no meu peito, o seu cabelo a fazer-me cócegas… o seu corpo no meu.

Então queres fugir… com uma mulher que não conheces… para voltar a Portugal…

Sim… não é deliciosamente simples?

E vão como?

De comboio…


Espera… espera… não estávamos a falar de uma que já passou?

Não… é simples… foi um sonho… já não te posso contar sonhos?

Carlos Cardoso

03/03/08


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Memorias de um pequeno bêbado...

Sou, serei.

Quero escrever, criar, destruir ideias, formular ideias e vê-las a tomar forma. Não consigo… quero escrever historias, fazer vidas, criar sentimentos. Não vejo mais nada à minha frente senão este desejo.

Não estou desesperado por uma criação, não tenho necessidade de esmagar papel em tinta, não tenho vontade de desesperar com palavras.

Tenho sim raiva; tenho ideias a espaços, fragmentos, partes de películas de filmes queimados pelo tempo. Ideias enormes gigantescas e maravilhosas que esbarram na realização. Tenho o começo e o fim, um nascimento e uma morte. Falta-me a vida…

Passei os últimos meses a pensar se me faltaria vida a mim próprio, tive nojo de mim por pensar que nunca mais conseguiria escrever.

Cego, completamente cego, perdido. Acima de tudo sou um escritor. Não importa ser publicado ou não, não importa se nada passo para o papel. Quero matar todos os que me exigem algo a que não têm direito. Sim, esmagar a traqueia da próxima pessoa que, com um sorriso de escárnio, me perguntar onde estão os meus manuscritos. – “Onde estão os teus livros? Esses textos?”

Será que preciso de por tudo no papel? Tenho mesmo de partilhar tudo com todos? São as minhas ideias, são a seiva que corre dentro de mim, são o cliché estupidamente repetido à exaustão, são partes de mim… sim, partes de mim! É assim tão difícil perceber que é tudo parte de mim? Porque pensam que quero partilhar com vocês?

Eu sei que isto pareceu totalmente despropositado e idiota, mas porque raios não entendem? A minha vida está a meio, sim, a meio, quem sabe no início. Quem sabe no fim para começar outra… tenho o meu mundo quebrado, arrastando-me o espírito para cantos escuros e frios que não conheço. Sinto o cheiro de sangue e carne suja lá, não fujo, sinto o cheiro e não tenho medo, nem sequer nojo… é cheiro de humanidade. É o meu cheiro que todos os dias tento disfarçar.

Perdi os alicerces que com as pedras construi (as pedras… só magoam se não as apanhares com as duas mãos antes de te atingirem.).

Como é que posso criar vida ou sentimentos? A minha própria vida foi-me tirada, se os meus sentimentos são incompletos como posso fingi-los para outros? Tenho raiva, toda a raiva, todo o ódio, toda a inveja (toda?). Preciso de compaixão, carinho e, por muito lamechas que seja… amor… preciso.

Não posso criar nada só com raiva e ódio. De vez em quando tenho pequenos lampejos desses sentimentos que não tenho e crio algo. São textos como este em que só me queixo e dou desculpas… mas não tenho opção (tens).

Vivo assim, incompleto… escrevo sozinho, leio sozinho, penso sozinho, vivo sozinho, morro sozinho… amo sozinho.

Onde estavam eles? Aqueles escritores que escrevem na miséria, aqueles que vivem num mundo lindo e de repente escrevem na miséria. Onde está esse interruptor mágico para essas dimensões onde, num momento tudo está bem, noutro estão na miséria e escrevem? Com um bocado de sorte Cthulhu está lá num bar a distribuir senhas para a miséria. É o negócio dele…

Tenho raiva… não há ninguém que tenha o direito de me pedir nada, o que eu dou, dou porque quero, dou porque é isso que quero. Aprendam de uma vez por todas, o meu destino é meu. Se os meus textos são meus não importam que seja bons, maus, bem escritos, com gralhas, com falhas. Eu escolho da-los e vocês têm apenas que os ler. Não mos peçam. Tenho o direito de os guardar para quem os dedico.

Tenho uma obra dentro de mim à espera que alguém ma arranque do peito… e por isso sou escritor.

Carlos Cardoso

18/10/05

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sou Jean-Louis Lebris de Kerouac

Levanta-te do chão. Não estás ainda morto. Ainda há tempo.
Não consigo sentir nada.
Consegues sim, ainda há tempo.
Já não sou ele.
És sim, ainda choras ao ver aquele filme.
Aquele filme...
Sim, aquele filme que fala de esperança.
Ele não morre.
Nem tu morrerás.
Eu já morri.
Ele bem pensou isso durante 20 anos.
Eu tenho já quase 27....
Ainda não estás morto.
Estou sim.
Porque dizes isso?
Porque já não me consigo importar.
Então porque choras?
Porque estou triste.
Isso faz parte de ti, não é por causa disso que estás morto.
Estou morto.
Não estás nada, se estivesses ela não te iria procurar.
Ela quem?
Ela!!! Tu sabes, aquela que um dia virá.
Já veio.
Essa é simpática... mas não é ela.
Era.
Não é.
Como é que sabes?
Não estás com ela.
Não estou com ninguém,
Porque ela ainda não chegou.
Já chegou sim.
Burro.
Eu sei que sou.
Não és... mas ages como se fosses.

Levanta-te do chão, ao menos discute comigo.
De nada serve.
Serve sim... como é que serás como ele se nem sequer discutes?
É apenas a personagem de um livro.
O nome muda, mas ele viveu. A personagem é tão real como o que sentiste ao ler.
Senti...
E choraste, que bem me lembro, choraste.
Quero ser como ele.
Ele quem?
Aquele que viaja na parte de trás de uma carrinha à noite.
Então levanta-te.
Porquê? Não tenho aquele talento.
Tens, ele está guardado dentro de ti.
Já ninguém se importa.
Tu queres dizer elas.
Elas...
Elas importam-se... mas dás demasiada importância ás suas opiniões.
São as mulheres da minha vida... preciso delas.
Ela vai-te dizer que não importa, faz o que tens a fazer por ti.
Ela faz sempre tudo apenas por si... e é uma boa amiga.
E provavelmente sabe o que diz.
Sempre soube, é boa amiga.
As outras um dia saberão o que és.
O que é que eu sou?
Louco, desvairado que chora com esperança e medo.
Medo... quero ver aquele mar que um dia vi sem fim.
Volta lá no próximo verão.
Vou tentar, chorei ao vê-lo como nunca tinha chorado. Choro demasiado.
Choras nada, ninguém te vê, mas choras a quantidade certa.
Achas que mudariam a sua opinião sobre mim?
Não sei. Mas sei que nunca te deixariam sozinho.
Raramente deixaram.
As mulheres da tua vida... Aiii as mulheres da tua vida.
Só tenho quase 27 anos, não são assim tantas mulheres.
São as suficientes, loucas, carinhosas, silenciosas... que gritam.
Tenho saudades delas.
Dela.
Delas.
Tá bem, não discuto contigo nisso.
Delas, de uma só tenho saudades do que sentia, não por ela.
Então de quê?
Do sentimento...
Ela compreende, é tua amiga, não leva a mal.
Nem tem de levar.
Finalmente um bocadinho de emoção.
Cala-te.
Não me calo, não mandas em mim… levanta-te.
Já estou de pé, não chateies mais.
Jean-Louis Lebris de Kerouac
Achas que posso vir a ser como ele?
Porque não, ela um dia acreditou em ti.
Qual?
A do sentimento.
Ela acreditou em mim...
E ainda acredita.
É boa amiga.
Tenho saudades de me sentir daquela maneira... dava-me força.
Um dia ela chegará para te dar força.
Ela quem?
Ela... já te disse... ela.
Ahhhh, ela... eu acredito em ti.
E agora?
Agora levanto-me.
E que mais?
Agora vivo, respiro, sinto, faço, grito, salto, choro, choro, choro tanto...
Porque?
Porque sou Jean-Louis Lebris de Kerouac... e GRITO

SEREI AQUELE SER QUE NÃO PARA, SEREI AQUELE QUE CAMINHA, SEREI AQUELE QUE CHORA, SE AFOGA NAQUELE MAR... SEREI TANTO, TÃO FORTE, DE TANTAS MANEIRAS...

Serei... tenho de ser...

Vais ser.

Carlos Cardoso

16/02/08

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Tive um sonho ontem... isto foi o que sobrou quando acordei.

Ele nunca a negaria. Mesmo com todos aqueles anos a pesar na sua mente ele sabia, a sua promessa mantinha-se. Quando ela o deixou pela última vez ele fez uma simples promessa. Nunca a negaria, fosse de que maneira fosse, a resposta dele seria sempre um sim, nunca a negaria. Estivesse ele casado ou não, mesmo que tivesse filhos, ele nunca a negaria. Mesmo que por um acaso do destino ele julgasse estar apaixonado por outra mulher, ele nunca diria que não.

Agora, anos depois, ela estava à sua frente, cheia de dúvidas, a pensar se estaria bem, se iria ficar bem, se algum dia poderia ficar bem a fazer aquilo.

Ele só pensava em responder-lhe, em dizer-lhe que sim. Ela só teria que lhe pedir uma vez, ou então levantar a cabeça. Pedir-lhe com palavras ou sem palavras… para ele era igual.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

She holds all of my thoughts...

Lembro-me de a ter achado incrivelmente bonita, não porque era uma beleza canónica, mas sim porque era uma beleza que transparecia no seu sorriso, um sorriso que era tão característico dela, um sorriso desenhado por uns lábios bonitos, um corte de cabelo curto mas que dava vontade de lhe passar os dedos pela nuca. Lembro-me de lhe olhar para o decote e pensar que era, para usar um eufemismo muito forte, um decote muito lindo…

Lembro-me de entrar no quarto dela primeira vez, lembro-me de estar nervoso, muito nervoso, mas animado, excitado… quase feliz pela primeira vez em quase ano e meio. Ela saiu do quarto e fiquei quieto a observar a sua cama, as suas paredes… ela entrou e trouxe-me uma combinação estranha, gelado e uma bohemia para beber… ela tinha-se lembrado do que eu gostava, e isso fez toda a diferença, ela lembra-se sempre…

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Desafio da menina Su.


Ora bem, a menina Soraia no seu blog http://suziinha.blogspot.com/ lançou um desafio interessante. Pois bem, aqui fica:

Hitomi Kanehara
Serpentes e Piercings

Página 30
Linha 12 e 13

"Esmurrou-o na têmpora uma vez, e outra, e outra. E quando o sangue começou a brotar, Ama não parou."

A letra de um bêbado.

Descobri hoje mais uma parte de mim. Algo que eu já sabia… mas que na verdade nunca dera a devida atenção. Cheguei a minha conclusão sobre a minha caligrafia, essa tão íntima expressão do meu ser.

Não sou, nunca fui nem serei nem pintor, nem musico nem escultor. Exprimo-me pela minha letra e pelas palavras que ela desenha. Esculpo figuras na mente de quem me lê, espalho tinta na tela das páginas vazias, moldo figuras incompreensíveis… a minha letra…

Porque não escrever com uma letra legível? Porque não deixarem pensar que compreendem os rabiscos? Acho que sei porquê, acho que me lembro. Desde o primeiro momento, desde a primeira vez que me indicaram o quadro negro, desde o momento em que peguei no giz que me sinto preso. “Faz assim, como eu mando, faz uma curva… assim, mexe-te…”. Ordem que nunca cumpria, não porque não fosse capaz ou não quisesse. Apenas a minha mão não se queria movimentar daquela forma; desejava outros movimentos, fortes, rápidos, livres…

Lembro-me de reguadas e berros que atingiam a ponta dos dedos, que esmagavam ossos, tudo por não seguir ordens.

Relutantemente aprendi, deram-me cadernos que mais pareciam ter apenas linhas grandes e linhas pequenas, tudo feito, esquematizado para controlar tamanhos, barrar e roubar a criatividade.

Percebi que letras grandes e letras pequenas não me deixam crescer, não me deixam ser livre. Querer inclinar as letras é assim tão mau!?

Hoje é livre a letra no meu livro, primeiro suspiro? Primeiro grito de liberdade? Dantes tinha medo, não mostrava cartas escritas à mão a ninguém por receio, temor de que não compreendessem as palavras… ou o que as palavras diziam.

Começar a mostrar a minha letra a alguém a alguém foi o meu primeiro passo… espero eu que tenha sido o primeiro passo. Ouvi falar tanto sobre a relação da letra com a personalidade. Pode ser verdade que todo o meu ser esteja contido nas minhas folhas?

Passo horas a pensar onde estará a porta que me mostre aquela mística libertação do meu ser, aquele zen puro feito de luz e orgasmos estúpidos e ridículos. Quero um símbolo, quero que a minha letra seja o começo de tudo o que me liga a todos.

Quero ser um escritor livre, de algum modo a minha letra tem de ter relação com isto. Não tenho que ser certinho, não tenho que ser grande quando todos o querem. Não serei nunca mais pequeno quando me obrigam.

Quero ser a minha letra, ir para um lado num momento e ir para o outro no seguinte, seguir frenético sem poder parar. Ser enorme quando eu o quiser, ser pequeno quando me apetecer. Quero manchar as folhas com riscos apagando os erros.

Quero que alguém faça como a lua fez uma noite…e em tantas outras noites… compreender a minha letra no primeiro texto… e quero que o resto se foda, para entender basta abrir os olhos.

Carlos

08/08/05

sábado, 17 de novembro de 2007

Prenda de anos para a menina Angie :) Eu não me esqueço de nada...



Como em tantas noites em que sai com o pessoal que agora conhecia do meu primeiro ano de universidade, eu estava triste, a pensar nem sei bem em que, ou em quem, mas uma rapariga de caracóis que não me conhecia de lado nenhum, que me tinha visto apenas uma vez ou duas e nunca me tinha falado, virou-se para mim e perguntou:

- Que tens!?

Bem … isto para mim era novo. Ninguém me chateava com este tipo de perguntas porque, eu escondia bem o que sentia, e bastava o meu grande sorriso de plástico para aparentar estar bem. Claro que depois de dizer que estava tudo bem, que nada se passava e mandar o sorriso de plástico á personagem dos caracóis, ela vira-se e diz-me isto:

- Não estás nada bem, nota-se, diz lá o que tens!!!

Ora bem, isto meteu-me impressão, foi como ter encontrado alguém com visão raio-x para dentro do que eu sentia, não me lembro de mais nada nessa noite, mas lembro-me do dia a seguir.

Enquanto estava parado em frente á porta da aula teórica de ITIC lembrei-me do tédio que tinha sido a primeira aula teórica, e pus-me a andar dali para fora. Nisto encontrei-a dirigir-se para a aula, não sei porquê, mas convenci-a de que aquela aula era um desperdício de tempo e fomos tomar café. As próximas horas foram passadas a conversar, dei comigo a falar com ela sobre tudo e mais alguma coisa, dei comigo a confiar nela como nunca tinha confiado em quase ninguém, e o mais estranho, é que ela ouvia-me, não como alguém que ouve sem interesse, mas ouvia-me atentamente. Não ficava calada, algo que vim a descobrir ser impossível nela, mas falava comigo, contava-me coisas, interessava-se pelo que eu fazia. Era talvez a terceira ou quarta pessoa que eu conhecia com quem podia mesmo conversar. Sai daquela tarde a pensar que tinha ganho ali uma boa amiga, afinal de contas, ela passou duas ou três horas a ouvir-me falar de Senhor Dos Anéis e de como era lindo, e de como eu estava tolo por ir ver os filmes, escusado será dizer que a convenci a ver todos os filmes comigo no cinema. Aliás, esse tornou-se no nosso pequeno ritual, um de muitos.

Á medida que ia passando mais tempo com ela, ia conhecendo-a melhor, cheguei a um ponto onde acho que ela sabia tudo sobre mim e eu tudo sobre ela, os pormenores que me escapavam não me interessavam.

Das coisas que me lembro melhor são obviamente as manhas de segunda-feira passadas no “caloiro” a beber “Ucal” quente …. Ou a ferver, e eu a mostrar-lhe música no leitor de cd’s. Lembro-me também de que almoçávamos um com o outro todos os dias na cantina da universidade, ainda não sei o que raio me passava na cabeça para comer lá, a comida era um nojo, só valia pela companhia.

Lembro-me também das tardes passadas nos cafés á conversa com ela discutindo sobre se eu tinha olhado ou não para o rabo da empregada, rabo esse que só olhei por estar a cinco centímetros da minha cara, até hoje essa discussão continua.

Lembro-me do primeiro dos filmes que fomos ver ao cinema juntos, o “Scary Movie 2”, sentados na primeira fila nas cadeiras do canto. A partir desse dia fomos ao cinema uma média de no mínimo duas vezes por semana, lembro-me que lá dentro costumava sempre ver o filme com a minha mão agarrada na dela.

Lembro-me perfeitamente de uma certa noite em que decidi apanhar uma gigantesca bebedeira porque ela não me ligava nenhuma por razões que aqui não escreverei. Para tornar uma história grande pequena, não apanhei uma bebedeira e a noite acabou muito melhor do que eu esperava. Se neste momento se estão a perguntar eu respondo, sim eu já estava completamente perdido por ela.

Nos próximos 3 meses mais ou menos, eu ora andava nas nuvens, ora o mundo desabava em cima de mim, normalmente andava nas nuvens quando a deixava e vinha para casa á noite, e de manha o mundo desabava, querem saber as razões!? Não digo, não têm nada que saber.

Quando tudo finalmente acabou e eu me apercebi, através dela, que já não havia nada que me fizesse andar nas nuvens fui para casa e dormi, acordei no dia seguinte como se me tivessem tirado algo. A diferença é que desta vez não me tinha tirado nada, e precisei de sensivelmente meio ano para ver isso. Afastamo-nos um bocado um do outro. Como ela dizia, tinha-mos confundido as coisas, ou pelo menos era o que ela achava. Algo do estilo de confundir amizade com amor, parvoíce se me perguntam, se alguém confundiu foi ela, mas também já não ando chateado com isso. Nos primeiros tempos pensava que já não havia equilíbrio na minha vida, mas estava enganado, equilíbrio não significa felicidade constante.

Passados uns tempos voltamos a dar-nos bem, muito bem de um momento para o outro, parecia que nada se tinha passado, era como o nosso segredo que ninguém sabia. Era como as nossas discussões sobre o rabo da empregada ou sobre o melhor fim para o nosso filme, acreditem ou não tínhamos um filme sobre o qual discutimos o fim através de mensagens de telemóvel, era o “O casamento do meu melhor amigo”, eu achei que tinha acabado bem, ela achou que tinha acabado mal, o normal.

De qualquer maneira, depois daquilo tudo ficaram apenas duas coisas, a amizade que apenas comparo á que tenho com o meu melhor amigo e a sua namorada, e o pequeno ritual que tinha-mos todos os natais. O ritual consistia em eu ir ver o “Senhor dos anéis” com ela. Podiam já não ter almoços com ela, podia já não passar horas a ouvir musica nas manhas, podia já não ter aqueles pormenores todos que tínhamos quando estávamos juntos ao princípio. Mas também, parecia-me a mim que já não precisava-mos de passar todos os minutos juntos um com o outro para estarmos felizes, encontra-la na universidade, quando saia á noite, quando ocasionalmente passávamos um dia juntos chegava perfeitamente, e isso agradava-me e ainda me agrada hoje. Ainda agora temos uma enorme amizade, e só tenho pena de uma coisa, não vou tantas vezes ao cinema com ela como gostava de ir, e o “Senhor dos Anéis” acabou, e não sei que raio de filme vamos arranjar para ver no natal.

E pronto, passados três anos é isto que tenho para contar, pormenores não há, isto chega para tudo o que queria dizer. Quem tem de perceber percebe.

Carlos Cardoso

Data desconhecida

sábado, 13 de outubro de 2007

Nameless sensation...

Ultimamente a sua mente vagueava para a sua recordação mais vivida, aquela que lhe dava mais conforto... e também mais dor.

Aos 23 anos foi a primeira e única vez que se sentiu apaixonado. Recordava-se constantemente de noites passadas num banco de trás com apenas uma manta a cobrir corpos nús, corpos colados que partilhavam suor. E lembrava-se dela, do seu cheiro, dos seus movimentos, do seu toque, do seu gemido... dela.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Take a look at me...

Roubam-me pequenos pedaços da minha vida. Arrancam-me bocados de pele, deixam os meus ossos à mostra, depois pegam na sua carne podre e decadente e obrigam-me a engoli-la.

Sinto-me uma manta de retalhos feita com a vida dos outros, há pedaços de mim que não são meus. É carne que engulo sem ser minha, tenho músculos e nervos que não são meus, cresço sem o saber, modificam-me com estas violações do meu ser. Nada disto é meu e estou farto de fazer tudo aquilo que não desejo.

“Tens liberdade durante meses, quase anos…”

Mas que é que isso importa? A verdade é que eu não tenho a minima escolha, qualquer justificação é apenas uma tentativa de dizerem que a culpa não é deles. Mas é, e isso não vai mudar, a culpa é deles.

De que serve a liberdade se caminhamos para o fim dela? Usamos-la para quê? Para quem? Odeio-os, usam essa liberdade como quem usa um pin, uma t-shirt ou um corte de cabelo; é bonito, afirma algo e, no entanto, não significa nada das pessoas que somos. Somos um bando de inúteis provocadores. Provocamos nojo e náuseas, nada mais

domingo, 11 de março de 2007

Loooove hurts!!!!

Mas se de há coisa que me lembro, é da primeira rapariga que demonstrou carinho por mim. Lembro-me que se chamava Sandra. Como é que é possível eu lembrar-me de algo da minha 1ª classe!? Não sei, mas lembro-me, lembro-me das suas tranças de cabelo preto, dos seus olhos brilhantes dos quais não me recordo da cor. Lembro-me de estar na 1ª fila e ela na 2ª mesmo por trás de mim, lembro-me de me virar para trás sempre que podia com sorriso envergonhado e pegar-lhe na mão, lembro-me dela a rir-se para mim com o mesmo sorriso. Também me lembro de ficar de castigo e levar reguadas na mão por me armar em esperto e virar-me para trás e perturbar a aula. Até com cinco ou seis anos o amor magoa.

In "a minha pequena vida"

domingo, 24 de dezembro de 2006

Nada de mais...

Cheirou a morte, lambeu-a, tentou come-la, a pureza era ela, ali, morta, imóvel. Sentiu-a entre os dentes, sentiu-a desfazer-se na sua garganta… mas mesmo assim era inútil, ele queria a pureza nas mãos, queria senti-la nos dedos, vê-la com os próprios olhos, queria ser o Deus daquela pureza.

Não a viu, não a sentiu, de facto não sentia nada e pôs-se a pensar, se ele tinha consumido a pureza de tantas maneiras, então ela estava dentro dele. Sentiu-se enjoado com a ideia, mas feliz, riu como um louco, pegou no cutelo e abriu a barriga, cortou-se, viu o sangue cair, meteu a mão por dentro da barriga. Entre gritos de felicidade foi percorrendo o seu próprio corpo, ela haveria de ali estar. Por entre as descobertas do próprio corpo sentiu então o raio final, um relâmpago de dor atravessando-lhe o corpo, modificando-lhe todos os órgãos, destruindo-lhe tudo.

Carlos

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Porquê??

Porquê

Um dia perguntaram-me sobre o que queria escrever.

Quero escrever sobre tristeza. Porquê muitos perguntarão. Porque a tristeza é o que todos sentem sem excepção. Ninguém consegue escrever sobre felicidade apenas. Podem referi-la, dizer que estão num estado de felicidade e beleza constante e inigualável. Mas a felicidade só é atraente se antes houve tristeza e miséria. De que outra maneira poderiam as pessoas avaliar o quanto amam alguém que durante anos lhes fugiu? Como poderiam as pessoas sentirem-se felizes com um abraço, se antes não sentiram falta dele? É impossível sentirem-se agradecidas por um beijo se não passaram dias e meses a sonharem com ele.

Há aqui um equilíbrio macabro, felicidade só é felicidade se a tragedia tiver acontecido. Felicidade só é felicidade se a tragedia acontecer. Quando se perde alguém todas as recordações são melhores, mais vivas, mais doces e mais poderosas.

Quando algo de bom acaba não se pensa no que aconteceu de mau, mas sim no que nos faz sorrir… ou até chorar, mas nunca no mau.

Então porque razão nunca escrevo da felicidade que antecede a tristeza!? Simples, ninguém sabe como essa felicidade é boa. Sabem apenas que a tristeza é má. Ao saberem isso irão adorar cada momento de felicidade que lhes der.

Então porque não escrever sobre a felicidade que vem depois da tristeza? De novo simples. O que interessa não é o resultado, mas sim o que se fez para lá chegar, a caminhada. Se lhes mostrasse apenas felicidade que veriam eles? Algo vazio, simples. Bom, mas sem sacrifício. Mostrando o caminho árduo que se percorre não importa o final, ele será sempre bem-vindo.

Da mesma maneira que vivo, escrevo. Não me escondo da tristeza, lamento-a e deixo-a passar, lentamente, mesmo que me sufoque, mesmo que tenha de lutar contra ela. Faz parte de mim, esmaga-me a cada dia que passa e, só espero pacientemente que, ao levantar a cabeça veja algo mais… algo mais simples e directo. Nem que seja uma simples conversa entre quem nunca se conheceu. Nem que seja uma conversa em quem se está a conhecer, porque nunca se sabe, pode sempre vir dali um pequenino momento de felicidade. Um pequeno instante que agarrarei com todas as forças, um pequeno instante a que me entregarei até sufocar como se me afogasse.

Haverá felicidade na minha vida e na minha escrita, eu sei-o, mas será sempre através da tristeza… sempre foi…

Carlos Cardoso

15/08/06

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Caminha comigo...

Caminha comigo

Nunca ninguém pensa verdadeiramente nisto. Era estúpido se assim fosse. Sabes disso não sabes? Que estúpido seria, levantares-te a meio da noite e pensares que mais valia fazeres parte do pó cósmico, do inaudível grito da humanidade.

Nunca acontece, afinal de contas somos saudáveis, temos comida na mesa, uma cama quente, amigos que nos adoram e família que nos ama. Levantamo-nos de manha e temos um trabalho, ou pelo menos alguns têm. E é bom, é muito bom saberes que vais ganhar dinheiro e contribuir com algo para algo. Se não tens trabalho estudas. Aprendes, evoluis e tornaste em algo melhor. Pensas que não pensei nisto? Pensas que em todos estes momentos a minha mente não se questiona sobre se será mesmo isto?

Eu vou falar e tu vais ouvir, vais ouvir como se eu estivesse prestes a dar-te dinheiro. Só assim terei a tua atenção sem nenhuma interrupção. A minha vida é como caminhar em Aveiro à noite. Começa pelo sítio das luzes, uma rotunda desnivelada onde toda a gente passa para fazer duas coisas; ou vão comprar algo para um dos lados, satisfazer essa sede ou, vão satisfazer outra sede na praça.

Cala-te e não me julgues snobe e arrogante por dizer que são todos consumistas e bêbados. Eu sei que são assim porque eu também o sou, sou uma daquelas pessoas que tendo dinheiro compra, tendo dinheiro gasta numa bebida à noite. Sim, eu sei que sou assim, não porque seja fraco mas porque sou apenas eu, eu e mais ninguém, e sou igual a tanta gente que me mete nojo. Eu sou eu, único na minha parecença com todos.

Mas há uma diferença entre todos e eu, eu caminhei mais alem, para fora das luzes subi pela avenida exactamente à meia-noite. E deixa-me que te diga o que vi, uma cidade prestes a perder o brilho, uma cidade abandonada e demente. Já olhaste bem para o Oita? É uma pena, um dia foi o centro de Aveiro. Agora, no meio de uma avenida cada vez mais escura e solitária, ele agarra-se com unhas e dentes ao passado, tentando sobreviver, aceita tudo o que aparece, lojas estranhas que ninguém quer e filmes lindos e desconhecidos. Já olhaste para as pessoas que frequentam este sítio durante a noite? Proscritos da cidade, moradores do passado.

Mas esta parte nem sequer é a má. Esta ainda vive, agarra-se com tudo o que tem à vida. Se caminhares mais vês os prédios mais antigos, as rachas que agora esfolam as paredes, os antigos estabelecimentos de outrora com sinais de “trespassa-se”.

E depois olha para ele, um simples cinema fechado, aquele que foi para mim o cinema mais confortável de todos os tempos. Sabes que ainda me lembro da noite de estreia do Batman, o primeiro, o do Tim Burton. Acreditas que havia uma fila até cá fora para entrar? Eu lembro-me dos meus pais me levarem, lembro-me de os ouvir falar sobre se conseguiriam comprar bilhete. Fiquei triste ao ouvir isso mas o meu pai lá comprou os bilhetes, e lembro-me do sorriso da minha mãe ao ver-me a entrar para o cinema e sentar-me mesmo no meio da sala. Foi a ultima vez que me senti puro e sereno com felicidade.

Se olhares para lá agora está fechado e sujo, ninguém vai lá e à noite é apenas um lugar escuro e morto. Os postes de luz são antigos e a sua luz fraca, as árvores gigantes da avenida tapam-nos e, de vez em quando, lá passa um carro em direcção às luzes.

É aqui que acaba, não porque quero que acabe mas porque simplesmente acaba.

Estudo e vivo, amo e sou amado, compro, bebo, observo e caminho. Sinto-me como esta cidade, uma luz enorme ao princípio, tal como a minha vida. Lentamente tudo passa, ficam memórias e velhos hábitos. Memórias boas e carinhosas, até ao dia em que começam a pesar, depois fecham-se e tornam-se escuras e velhas até serem tão pesadas que não as consigo carregar.

Por isso caminhei até aqui, até ao fim da avenida, por isso te pedi que viesses cá ter comigo.

Para em frente à linha e diz-me o que vês.

- Nada, não vejo nada de diferente. –

Então olha para os dois lados.

- Uma linha de comboio, uma para sul, outra para norte… –

Eu não posso ficar aqui, tenho de ver mais, de viajar mais, de pensar mais, de me sentir mais feliz e, esta cidade é pequena e morre. A cada centímetro dela que morre eu morro, a cada parede que racha uma memória minha se esvai… compreende por favor.

- Faz o que tens a fazer, sempre é melhor que te tentares matar de novo, tens razão, nunca ninguém pensa verdadeiramente em se matar, nunca ninguém acorda com suores frios a meio da noite com medo de viver. É impensável a alguém feliz que isso aconteça. Só que tu não és feliz –

Ainda bem que compreendes. –

Hoje é dia 5 de Junho, são 00:45 exactas. Daqui a um ano estarei aqui à tua espera, nem mais um segundo. Adeus –

Adeus.

Nunca pensei em matar-me… mas tentei faze-lo, nunca pensei em ama-la… mas amei-a, nunca pensei em fugir… mas estou a fugir, não penso em voltar, mas nunca se sabe…

Vou para o sul, o norte é demasiado amigável.

Carlos Cardoso

05/06/06

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Que tipo de morte és tu?

Vamos fugir, só durante um bocadinho. Arranjamos o teu carro e fugimos para um sítio que tenha sol, é simples, eu tenho um pouco de dinheiro guardado, nunca o gastei, nunca tive ninguém com quem o gastar. Eu arranjo um emprego quando lá chegarmos. Ninguém precisa de saber, ninguém precisa de nos impedir.

Não temos que ficar aqui, não temos de sentir todo o peso.

Vens comigo ou não? Sabes bem que não há aqui nada para ti. Não temos amor, não temos sorte, não temos felicidade. Foge comigo, só durante um bocadinho. Vamos pela estrada fora, é Verão e ninguém precisa de vir atrás de nós. Nunca ninguém virá atrás de mim e, os que vierem atrás de ti desistirão. Vamos guiar de noite, dormir de dia numa praia, dentro do carro, à beira da estrada, em algum sítio.

Deita-te comigo e toca-me com a coxa, abraça-me pelas costas, beija-me a nuca e arranha-me o peito. Torna-me único com as marcas dos teus dedos, com o sabor da tua língua. Torna-me naquilo que durante anos não fui. Liberta-me, eu prometo que um dia farei isso por ti. Não chores mais, não esmagues a cabeça contra o volante, não apertes o peito nas mãos. Usa este carro para fugir, se não tens nada aqui foge.

Disseste-me que aceitavas. Uma noite, só terias que aguentar uma noite e mais nada. Às 5 da manha eu estaria ai, exactamente quando o sol nascesse. Deixarias tudo para trás, essa casa cuja forma parecia pairar sobre ti. Essa repressão, uma necessidade de a manter arrumada que te mantinha constantemente assustada, o peso de um punho que se abatia sobre ti se algo estava fora do lugar. Disseste-me que o meu toque te acalmava, sussurraste-me ao ouvido que um dia o meu olhar te fez sentir desejada. Eu sei que sou novo, mas poderia ter fugido contigo, eu sei que tinhas apenas 32 anos e eu metade disso, mas eu podia ter-te protegido.

Cheguei a tua casa e escondi-me na garagem durante 20 minutos. Não ouvi nenhum som durante esse tempo todo. Deixei a minha mala no chão e entrei na casa, um silêncio enorme habitava cada divisão daquela lúgubre casa de dois andares. Visitei cada quarto e encontrei-te a ti na cama onde te tive pela primeira vez, não na tua que essa tinha te violado. Encontrei-te no quarto ao lado, no quarto que seria um dia para a tua filha que nunca nasceria. Encontrei-te com o lábio desfeito e um olho negro e pensei que estarias a dormir. Encontrei-te morta, com uma garrafa de gin e um frasco de comprimidos vazio. Tinhas a camisa rasgada, o peito à mostra, as marcas de dedo ainda lá subsistiam.

Disseste-me que o teu coração era meu e, durante 1 hora olhei-te em silêncio, convencido que não conseguiste aguentar nem mais 1 minuto. Fui à cozinha e trouxe uma faca afiada. Abri-te o peito, desfiz tudo até chegar ao teu coração. Não o tirei porque ele não me pertencia. Em vez disso tirei do bolso o pequeno colar que tinha comprado no dia anterior, o símbolo do nosso recomeço, uma pequena pedra azul. Um azul tão profundo que só existia nos teus olhos. Coloquei-o em cima do teu coração e sai. Peguei no teu carro e fugi, fui viver a nossa vida. Não durou e cedo me juntei a ti.

Carlos Cardoso

22/05/06

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Amor e Desespero...

Amor e desespero

Então queres que pense? Então queres que sinta algo? Queres que arranque algo de mim? Queres que faça algo comigo? É simples o que pedes com os olhos, é simples o que pedes com a carne do teu pescoço. Queres que me liberte ainda mais. Se eu pudesse mostrava-te o quanto a decadência da carne me enoja. Se eu pudesse mostrava-te o quanto os livros me irritam, o que eu os odeio. Amo-os, sabes disso? Com cada palavra inscrita no papel eu perco um pouco de mim. Quero escrever as minhas letras como runas. Que sobrevivam ao tempo e ao escárnio.

Odeio tanto as páginas dos livros, odeio-as tanto que tenho vontade de as arrancar, amarrotar, enfia-las na minha boca, esmaga-las entre os meus molares, dilacera-las com os meus caninos, amacia-las com a minha saliva. Tornar todas aquelas palavras, historias, personagens, amores, sexo, traição e sonhos uma parte de mim. Envia-las para o ácido do meu estômago e tornar-me um livro para que me leias.

Haverá metamorfose mais perfeita? Poderias deitar-me na cama, na relva ao sol, folhear-me com os teus dedos, beijar-me com os teus olhos, provar-me com a saliva presa aos teus dedos, deixar que o vento me virasse as paginas conforme o destino te vira o que sentes? Leva-me para onde quiseres, escondido dos olhos de todos, tal qual um livro indecente sobre sexo. Poderias ostentar-me orgulhosamente como um bastião da tua liberdade, da tua sexualidade perfumada, da tua alguma coisa que me faz virar a cabeça e sorrir desesperado.

Sublinha em mim todas as passagens que gostares, anota em mim os meus defeitos e virtudes, enche-me de vergonha, mostra-me o que tenho a temer. Berra aos meus ouvidos uma gargalhada sonora que me faça sangrar os meus medos.

Olha-me para lá da minha capa escolhida por outros e diz-me que nome seria apropriado para o meu mundo.

Queres que te diga que nome te dou? Já te li muitas vezes, chamo-te amor e desespero. Odeio-te como odeio todos os livros por inveja, amo-te como amo todos os livros por ler, todas as páginas por arranhar, todas as letras por cheirar!!! Amo-te sem nunca te ter visto, porque nunca te li, e tenho medo que, depois de te ler e abraçar aquele FIM, só reste ódio, por não ser como tu, por não saber escrever como naqueles livros.

Para quem ainda não li.

Carlos Cardoso

26/04/06